Tempus fugit
Essa é uma história sobre o
tempo, ou melhor, da sua contagem e como ela nos afeta durante a transição entre
períodos, especialmente os de um ano.
Muitos de nós vimos a passagem do
século, isso sim, uma grande coisa, mas na falta de um século novo, vamos nos
contentando com a passagem do ano, que já está de bom tamanho.
Cá chegamos no meio da
tradicional enxurrada de remorsos, promessas e listas do que não vamos fazer
nunca mais.
Coisa boa, essa paradinha para
pensar.
Todavia, há quem prometa demais,
como se o ano nunca mais acabasse.
As listas começam com a dieta,
claro, afinal acabamos de sair de uma orgia alimentar. Depois seguem: curso de
inglês, academia, viagem, reatar uma amizade, visitar o tio velho, parar de
fumar, beber e deixar de falar mal dos outros.
Aliás, parar de beber talvez
ajude na última promessa, embora haja quem não precise de álcool para chicotear
inimigos e até amigos com a língua.
Pensamos que o ano novo
inteirinho para nós é tempo suficiente para tanta coisa.
Achamos que a tal folha em
branco do reveillon tem espaço para todos os nossos desejos, mas nos
esquecemos que o imponderável está sempre pronto para nos alterar os planos.
Também não levamos em conta que incorporar hábitos pode ser mais difícil do que
tirar, sozinho, um elefante adormecido da sala.
Afinal, tempus
fugit, o tempo voa, ou corretamente, foge, como escreveu o poeta romano Virgilio.
É por tudo isso
que vamos contar a história que se segue.
Havia um lugar que ninguém sabia
onde ficava, mas que existia.
Sabe-se que era uma sala com uma
imensa porta. Os objetos eram antigos e a luz no local era azulada e amarelada
ao mesmo tempo.
Havia livros, ampulhetas,
relógios, globos terrestres, papiros, mapas e pergaminhos, tudo bem preservado.
No centro, uma mesa parecia ter raízes num chão de fumaça e cadeiras grandes
com encostos longos e torneados pareciam esperar os ocupantes.
A porta se abriu e por ela
entraram vários vultos imponentes. Cheiro de incenso. Eram sábios de diferentes
civilizações e épocas que estavam chegando para uma espécie de Concílio.
Após todos se acomodarem, a sala
foi escurecida e apenas a mesa permaneceu iluminada.
O primeiro a falar foi um mestre
grego, talvez Hesíodo. Ele ficou de pé, tocou um pequeno sino e dirigiu-se a
todos numa língua universal e atemporal.
- Caros Mestres da Humanidade.
Como combinado, cá estamos para discutir a contagem do tempo. Quero falar sobre
o calendário solar que os gregos desenvolveram enquanto estavam na Terra. É um
instrumento de precisão incomparável, baseado no movimento dos astros e
estações do ano. Não vejo porque não tem sido usado globalmente, num momento em
que precisamos uniformizar a contagem do tempo, pois, na Terra, algumas
civilizações ainda usam calendários diferentes. Peço a vossa consideração.
Os egípcios eram representados
por uma entidade fulgurante, talvez o deus Hórus, que tocou o sino para que lhe
fosse concedida a palavra.
- Caros mestres da sabedoria
mundial. Todos sabem que os antigos egípcios são, com razão, orgulhosos de sua
história. Foram muitas as inovações que levamos para a Terra, especialmente o nosso
calendário solar, que sempre funcionou com acurácia.
- Sempre acreditamos que os
movimentos dos astros têm poderes divinos e, portanto, o nosso calendário muito
nos auxiliou, junto ao Rio Nilo, para com a nossa agricultura. Concordo com o nosso
irmão grego, precisamos unificar a contagem do tempo na Terra e coloco à prova
o calendário do antigo Egito. Aguardo a vossa opinião.
O sino tocou outra vez e a luz
dirigiu-se para um outro vulto. Era um ser de conformações femininas,
provavelmente a deusa etrusca Nortia, que regia a fortuna e o destino.
- Prezados Mestres. O povo
etrusco deixou sobre a Terra um legado de espiritualidade e conexão com a
natureza. O próprio nome Calendário, usado na Terra, provém de calendes,
uma palavra etrusca, depois utilizada pelos romanos. Deixamos um calendário
lunar, pois acreditamos na influência da Lua e na correta periodicidade de seus
ciclos. Vejo todos os motivos para que o Calendário Etrusco seja o padrão para
a Terra e peço a vossa consideração.
Agora o som do sino surgiu do
lado de uma entidade cujas vestes lembravam os romanos. Tudo indicava que era o
próprio Rômulo, um dos fundadores de Roma, a representar aquele povo poderoso.
- Amados senhores e senhoras. É
notório que os romanos são até hoje reconhecidos por seu pragmatismo. Nosso
calendário foi baseado na Lua, como o dos etruscos. Sempre foi eficiente,
permitiu grande organização e sofreu vários aperfeiçoamentos, tendo sido substituído
depois da queda do nosso Império, um dos mais importantes do mundo. Sou pelo
retorno imediato de nosso sistema para padronizar o tempo na Terra. Obrigado.
No lado oposto da mesa estavam os
representantes do povo maia, provavelmente os mais antigos seres daquela
civilização, Tepeu e Gucumatz. E foi esse último que, com anuência de Tepeu,
pediu a palavra:
- Admirados senhores e senhoras.
Não é segredo para ninguém que nós, maias, ficamos famosos pela complexa
compreensão que tivemos do tempo. Baseamos o nosso sistema nas contagens
criadas pelas diversas civilizações mesoamericanas que se apoiavam nos ciclos
cósmicos e no movimento dos astros. Sempre acreditamos que cada ciclo do tempo
traz oportunidades de crescimento espiritual, que é hoje o que a Terra mais
precisa. Por isso, colocamos o Calendário Maia como padronizador do Tempo.
Agradeço as vossas deliberações a nosso favor.
Uma entidade com aspecto austero
levantou-se. Era o representante do povo hebreu, provavelmente Moisés, pois
teria sido ele que aprendeu, diretamente com Deus, a fazer a contagem dos dias
e meses.
- Meus amigos queridos. O
calendário judaico, ou hebraico, é de uma beleza e eficácia incomparáveis, pois
junta aspectos solares e lunares. Temos uma grande tradição religiosa que
perdura até hoje e nosso calendário é ainda usado pelo povo judaico. Nossa
gente sempre acreditou que o tempo é sagrado. Por ser um calendário ainda vivo,
fica a minha proposição para que seja amplamente utilizado. Obrigado.
Havia ainda duas entidades a
falar e a penúltima se levantou. Parecia ser o monge Dionísio, criador do
Calendário cristão. Assim ele falou:
- Companheiros e companheiras. No
século VI, criamos o Calendário Cristão por iniciativa de Gregório XIII. Sempre
acreditamos que o Tempo é linear e segue um plano divino. Quando Jesus desceu à
Terra, o impacto de suas palavras e obras foi tão grande que o calendário
gregoriano passou a contar o Tempo como fatos ocorridos antes e depois do
nascimento d’Ele. Levamos em conta as estações do ano e nosso método até mesmo
corrigiu alguns erros do calendário juliano, antes usado. Por isso é hoje o
instrumento mais utilizado no mundo. Pedimos que seja o padrão.
A última entidade a pedir a
palavra foi o representante do calendário islâmico. Os membros do concílio o
reconheceram como Hazrat Umar bin Al Khattab, criador do calendário que
os muçulmanos utilizam até hoje. Ao falar, Hazrat realçou o seguinte:
- Admirados participantes desse
concílio. Nós, islâmicos, utilizamos o calendário que eu, humildemente, criei.
Ele começa com a Hégira, a fuga do profeta Maomé para Medina. É um calendário
lunar que tem sido eficiente para os povos dos países que seguem o islamismo e
pode ser muito bom para todos também. É muito eficaz para marcar festividades, reforçar
a devoção a Deus e impulsionar o progresso. Acredito que pode estar a serviço
de todos. Agradeço.
Terminadas as breves palavras de
cada representante, a votação iam começar.
Tudo ocorria de forma organizada,
serena, respeitosa e sem altercações, muito diferente do que acontece em
algumas assembleias terrenas.
Antes que o representante grego
tocasse o sino para iniciar a escolha do calendário padrão para a Terra, eis
que entra na sala nada mais nada menos que o cientista Albert Einstein.
Todos se voltaram para aquela
porta imensa, pois não era nada comum ela se abrir no meio de um concílio,
ainda mais para a entrada de uma pessoa que não era exatamente seguidor de
nenhuma religião e nem criador de calendários. Com o seu jeito humilde,
Einstein não se sentou em nenhuma cadeira, mas apenas fez um sinal para o
coordenador do encontro.
O grego Hesíodo o saudou e
perguntou o que desejava ali. Einstein respondeu:
- Meu ídolo Hesíodo, meus
queridos e admirados mestres. Fui avisado, na dimensão em que resido, sobre
esse concílio. A voz ordenou-me para que viesse aqui e vos explicasse o que
fiz, na Terra, pelo tempo. Não sei como cheguei aqui e nem onde exatamente
estou, mas isso não me perturba. Apenas peço que me expliqueis como posso
ajudar-vos.
Hesíodo respondeu:
- Não tenho dúvidas de que tu,
Einstein, mesmo não tendo seguido nenhuma religião e nem ter inventado um
calendário “einsteiniano”, tens todas as credenciais para dirigir-te a nós,
pois ninguém, até hoje, entendeu melhor o tempo do que tu. Não sabia da tua
vinda, portanto não sei o que deves cá fazer, mas acredito que poderia ajudar-nos
a concluir qual dos calendários devemos padronizar na Terra, pois é essa a
discussão de hoje.
- Com toda a honra, respondeu o
cientista. Vós sabeis que eu nunca acreditei na existência de um Deus ou de deuses
que premiam bons e castigam maus, nem que haja um ou mais deuses vinculados a
igrejas criadas pelo homem. No entanto, acreditei e acredito que alguém, que
não consigo definir, tenha criado o Universo.
A mente brilhante de Einstein e a
sua compreensão revolucionária do universo despertaram a curiosidade daqueles
seres importantes e atemporais. Albert Einstein explicou que, para ele, o tempo
não era uma medida, mas uma dimensão onde os eventos ocorriam e se sucediam.
- Tudo é relativo. Eu teria que
começar assim, pois essa foi a minha marca, iniciou o físico, ironizando.
- Respeitados amigos: o tempo,
como tudo, é relativo. Tudo depende de onde e como vós estais. Não vou divagar
sobre os cálculos que levaram-me a concluir sobre o entrelaçamento do espaço e
do tempo e sua relação com a velocidade, pois vossa sabedoria dispensa
detalhes.
E prosseguiu:
- Tudo o que posso dizer para
ajudar-vos a concluir vosso concílio, é que não importa como contais o vosso
Tempo, mas o que os humanos fazem com o tempo que têm. O tempo é uma sequência
de momentos. Todos os instantes precisam ser usados para o bem-estar de todos, sem
condicionamento a crenças ou calendários. A humanidade é uma coleção de seres
semelhantes que desejam e sonham, mas têm necessidades e medos. E é o medo da
carência que faz a humanidade se estranhar. Se algo precisa ser padronizado é
isto: todo momento deve ser vivido pelas pessoas como se fosse o último delas na
Terra, pois o resto é imponderável.
Os sábios perceberam que, embora
suas abordagens fossem diferentes, todas buscavam entender e dar um significado
ao tempo.
Ao final, eles concordaram que o
tempo nada mais é que uma oportunidade única que corre igualmente para todos e
termina diferentemente para cada um, mas que permite a chance de todos fazerem
a diferença. Concordaram também que contar a quantidade de tempo não é o mais
importante, e sim, a qualidade do que cada um pode fazer com os instantes que
tem.
Unidos pela compreensão das
palavras de Einstein, os sábios saíram da sala com um novo propósito: usar o seu
tempo, muito mais amplo que o dos humanos, para beneficiar a humanidade,
independentemente de suas diferenças culturais ou religiosas. Ou do formato de
seus calendários.
Em 2024, o desejo desse simples
escriba é que cada um de nós possamos nos lembrar que, embora nossas culturas e
crenças variem, o tempo é um recurso único e imprevisível, constituído por muitos
“agoras” que só devem ser utilizados com sabedoria, em nome de uma vida um
pouco melhor.
E por que apenas “um pouco
melhor”? Porque o imponderável nos ronda. Atenção, pois tempo não é algo que se
deva perder.

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