A Porca de Murça
A PORCA DE MURÇA
A história é das boas, com o detalhe de que pode até ser verdade.
Pelo menos algumas partes.
É que as lendas são
como sopas. Algumas têm tantos ingredientes que nem mesmo o cozinheiro sabe
dizer o que colocou lá. Para tentar entender aquela mistureba, aparecem os
pesquisadores.
Afinal, um conto
cheio de mistérios e entes fantásticos, contado por mil bocas através dos
séculos, tanto pode ser uma invenção como algo que aconteceu, pontilhado por
tons, matizes e temperaturas que o preservam por muito tempo, como o sal faz
com a carne.
Assim como a cebola não
perde o seu cheiro mesmo tendo tantas camadas, as lendas seguem mantendo sua
essência, mesmo intercaladas de personagens inventados e reais.
Dá para ver que
escrevi esse artigo com fome, tal a quantidade de metáforas culinárias.
À procura da boa história, encontrei uma que diziam ser uma lenda com aroma de realidade. Fuxicando um pouco mais, vi que existem artigos sérios sobre ela, escarafunchados por historiadores de verdade.
Daí descobri que existe uma chance de não ser algo
inventado. Ou não.
Vamos a ela.
Deixe-me explicar o que é Murça, já que porca todo mundo sabe o que é.
É um município
de Trás-os-Montes, norte de Portugal, onde se faz excelente vinho e maravilhoso
azeite. Tem mais ou menos cinco mil habitantes.
A povoação é tão antiga que não dá para dizer quando começou. Há vestígios humanos descobertos com centenas de milhares de anos.
Vilas, estradas e pontes foram criadas pelos
romanos naquele local há mais de dois mil e duzentos anos.
No século XIII a aldeia recebeu uma carta de povoação e o título de “concelho” (município), foi renovado no século XVI. Dá para ver que não estamos falando de nada jovem.
Dizem
até que o nome foi escolhido por causa dos ursos que viviam ali, mas há quem conteste,
dizendo que o nome correto deveria ser Muça, de origem muçulmana.
Quem chega à Murça logo vê uma
estátua de pedra, conhecida como berrão, no formato de um grande
quadrúpede. O que significa aquilo? É o que vamos tentar contar, em meio aos meus exageros.
No século VIII a povoação sofria com ataques de ursos e javalis, que não deixavam pedra sobre pedra.
Comiam até
as pessoas.
Certo dia, os homens da vila resolveram encetar uma verdadeira campanha de guerra contra os suídeos. Há quem diga que mataram todos.
Há aqueles que afirmam que os quadrúpedes foram apenas
espantados, uma alternativa considerada mais ecologicamente amigável em dias de
hoje.
Aconteça o que tenha acontecido,
o certo é que quase todos os bichões sumiram. Eu disse quase?
Pois disse. Sobrou uma porca, que
uns dizem que era uma ursa. Essa suídea (ou ursídea) plantou o terror no
povoado. Era enorme, muito feroz e muito esperta.
Tentaram caçá-la, mas tudo
acabava em águas de bacalhau e a esfomeada criatura continuava comendo
tudo, de plantações e roupas nos varais até caçadores e crianças.
Certo dia, um cavaleiro tomou coragem e saiu para acabar de vez com o problema. Sob os aplausos do populacho, enveredou-se léguas mata adentro e se pôs atocaiado.
Ali ficou em silêncio
absoluto, munido de suas armas e de alguma tremedeira.
Ao cair da tarde a fome já o desesperava, a água havia secado, a comida acabado e nada da focinhuda aparecer. A noite chegou linda e enluarada.
O valente cavaleiro quase pensou em
desistir. Chegou a cochilar, mas os morcegos e as corujas, tão à vontade no
escuro, o atrapalhavam. Talvez o quisessem ajudar, afinal.
Indo até um carvalho para eliminar a única água que ainda havia por ali e que lhe estava a incomodar a bexiga, o valente escutou um amassar de galhos e um chec-chec de folhas. Agachou-se.
Nada.
Aproveitou para soltar mais algumas coisas que o incomodavam dentro da
barriga e ficou por ali, sentado num galho.
Os grilos estridulavam enquanto aguardavam suas namoradas. Uma cobra se insinuou entre os seus pés, mas pelo jeito o que ela queria mesmo era um pequeno camundongo que perambulava nas redondezas.
E tome cri-cri e cheiro de cocô.
De repente, sentiu um bafo quente no cangote, seguido de um grunhido estridente e grave ao mesmo tempo, coisa do próprio demônio.
“Ai que eu morro hoje”, pensou o caçador, cuja montaria estava distante para lhe oferecer uma fuga rápida. “Não posso fugir, com que cara vou enfrentar os camponeses?”
Outra baforada veio, seguida por mais um grunhido,
dessa vez o próprio arrepio da morte.
Quando lentamente virou-se, nosso herói encarou a coisa mais feia que já havia visto em sua vida. Não foi difícil identificar aquela carantonha sob a luz da lua.
Era ela, a monstra, pronta para
pular sobre ele, o que não demorou a fazer.
Deitada sobre o magro homem, a porca tentava aproximar o imenso focinho de tomada cabeluda do branco e fino pescoço do cavaleiro.
O homem, que talvez pesasse menos de um quinto das
arrobas dela, só fazia espernear e levantar poeira. E não era a poeira que
Ivete Sangalo nos manda levantar, tenha certeza.
A salvação veio do galho grosso sobre
o qual estava sentado.
Debaixo da porca, nosso herói conseguiu alcançar o galho e o atravessou contra a imensa cara do bicho, impedindo-o de mordê-lo, mantendo-o a uma distância de poucos centímetros da sua.
A situação
não ia durar muito, o bafo da porca entrava em suas narinas e não era nada agradável.
Ele mal conseguia respirar o suficiente para viver.
No entanto, o valente galho de
carvalho aguentou o tempo necessário para que o caçador alcançasse com uma das
mãos uma pequena faca que trazia na bainha, já que as armas mais poderosas
haviam ficado um pouco fora de mão.
Nosso herói achou que espadas e afins não eram companhias adequadas para quem ia só até ali para um prosaico chichi e talvez um número dois.
Erro de cálculo besta. Agora teria de se virar
com aquele canivete ou viraria ceia de porca.
Conseguiu espetar a barriga da bicha várias vezes, mas só a fez ficar ainda mais brava. Continuou espetando até levar um sopapo da suína e aterrissar a três metros de distância todo desconfigurado.
Rapidamente conseguiu sentar-se a tempo de enfiar a faquinha bem fundo no
sovaco da demônia, que já sobrevoava sobre ele.
Bela espetada, bem no coração, onde normalmente se matam os porcos.
A diaba resistia, estava possessa e cheia
de adrenalina, o que é mais ou menos a mesma coisa. Batia com as patas
dianteiras na cara do cavaleiro, que continuava desfechando furos naquela
couraça até não conseguir ver mais nada.
Os dois pararam de se mexer.
Um
minuto se passou até o caçador desvencilhar-se daquela meia tonelada de carne.
Todo rasgado, descabelado,
arranhado e sangrando pela cara inteira, o cavaleiro arranjou forças para
amarrar os pés traseiros da besta-fera numa traquitana atrás do cavalo e lá se
foi arrastando o troféu em direção à vila, que parecia agora estar muito mais
longe.
Depois de um bom tempo, já
clareando, nosso quase morto herói e seu esfalfado cavalo entraram vila adentro
com aquele fardo desabado, incapaz de matar ou machucar quem quer que fosse.
Imagine o tamanho da festa.
Os moradores saíram às ruas com
suas indefectíveis sanfonas e seus tradicionais tambores, as crianças cantavam,
as mulheres distribuíam doces e bolos.
Foi acesa uma imensa fogueira no centro da vila, onde dançaram até chegar a noite e a madrugada, tudo regado a vinho.
À noite, um grande churrasco de carne de porca foi servido, acompanhado
de broas de milho e batatas ao murro cobertas pelo impressionante azeite local (dá
para notar que ainda não almocei).
Todos se divertiam, menos o nobre
protagonista e seu brioso cavalo, que ficaram aos cuidados da curandeira de
Murça, que logo pensou as feridas do homem e o pôs a dormir com três canecas
daquele vinho sensacional, que, aliás, é fabricado por lá até hoje.
Os moradores, como pagamento ao cavaleiro, resolveram dar a ele e aos seus herdeiros três arreteis de cera todos os anos, algo como um quilo e meio, mas até o fim dos tempos.
Devia ser uma coisa
difícil de obter essa cera, provavelmente de abelhas, muito usada naqueles
tempos para fazer cremes e pomadas que tratavam feridas (nesse caso muito útil
ao cavaleiro) e para acender lamparinas.
Erigiram um monumento bem no meio da vila. Lá está ele até hoje, um berrão de pedra. Tem um formato estranho, é bem verdade.
Pode ser uma porca, uma ursa, um boi e até mesmo uma capivara ou
uma anta, se essas duas existissem em terras europeias.
Certo é que as caçadas eram
atividades que conferiam honra aos homens. Não se sabe ao certo se a lenda da
porca de Murça é baseada em fatos que aconteceram, mas sabe-se que as caçadas
eram frequentes e realizadas pelos mais corajosos, que, ao livrarem seus
povoados daqueles seres assustadores, eram escolhidos como senhores protetores
das povoações. E se tornavam nobres.
Hoje o detalhe da caça por nobres
acabou sumindo da lenda, que ficou como um símbolo da coragem do povo de Murça.
A história me lembra o conto
infantil russo Pedro e o Lobo, uma linda peça musical sobre o menino caçador e sua trupe de animaizinhos que foram caçar um lobo agressivo. Não vou contar aqui, mas vale a pena procurar.
Em
tempo:
Se
vierem a Portugal, não deixem de comparecer à Feira Franca – Porca de Murça, que
acontece nos dias 5 e 6 de Maio, no Parque Desportivo da Vila de Murça. É parte
das comemorações do feriado municipal, que cai em 8 de maio. É uma bela
oportunidade para beberagens, comilanças e música.
A lenda da Porca de Murça é uma tradição, mas não é contada do jeito que fiz aqui. Se é um fato real, não se sabe. Tomei uma enorme liberdade literária para dramatizar a caçada, que nunca foi testemunhada por ninguém.

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