Uma História Mágica
É BICHO FEIO QUE NÃO ACABA MAIS
Começo com o meu tempo de criança.
Aliás, um pouquinho antes.
Melhor: bem antes.
Nos tempos da Idade do Bronze, Idade Média e início da Idade Moderna, quando o angu era muito pouco, o que mais sobrava para a criançada era chinelada, paulada, cintada, pontapé, fome e ameaças com bichos horrorosos.
Tempos depois, com um pouco mais sobre a mesa,
a ciência nos mostrou que há muita sensibilidade e inteligência nos pequenos e
que não adianta apelar para monstros ou para a violência se quisermos educá-las
para que sejam boas pessoas.
Crianças reprimidas, violentadas e
desprezadas viram adultos pouco confiáveis. Basta checar a história de tantos
desajustados que andam por aí prejudicando os outros.
É bom salientar que não colocar
limites também faz cidadãos insuportáveis.
Tendo em conta esse assunto, o
assunto é sobre os seres assustadores que faziam parte das táticas edificantes
e educativas usadas num passado nem tão distante assim.
Comecemos pela Idade Média, quando não havia escolas regulares e a alfabetização não era obrigatória.
Naqueles
tempos, os filhos, mal aprendiam a andar, já estavam a serviço da casa, apanhando
de pau e passando fome. Sorte tinham os que morriam antes. Que não eram poucos.
Eram tempos duros. Faltava de tudo
para quase todos.
Os abastados sempre existiram. Estão
aí até hoje, de tudo fazendo para que os plebeus fiquem onde nasceram, continuem
pagando a maior parte dos impostos e os sirvam de cabeça baixa.
O que não nos deixa mentir são as
lendas, como a de João e Maria (ou Hansel e Gretel), compilada pelos irmãos
Grimm no século XIX.
Todo mundo conhece a história dos
irmãos que se perderam na floresta e foram parar no caldeirão de uma bruxa,
mas poucos sabem que a versão transmitida oralmente pelos aldeões medievais era
de arrepiar os cabelos.
É impressionante a leitura das versões antigas de Pinóquio, Cinderela, Branca de Neve, A Bela Adormecida e outros.
Metem medo, os finais são decepcionantes.
Bem como na vida mesmo.
É tudo
feioso, sem a roupagem colorida com a qual nos foram apresentadas.
As histórias são ótimas no original,
mas talvez nem tanto para os pequeninos.
Além de desnudar a imensa escassez daqueles tempos, as versões clássicas nos mostram que era comum eliminar as crianças ou simplesmente abandoná-las.
Era muita boca para pouca comida.
Já o século XIX, os contos-de-fada começaram a ser atenuados. Ficaram mais bonitinhos, a ponto de já não se parecerem em quase nada com as oralidades tradicionais.
Até porque se fossem mantidos do
mesmo jeito, só seriam liberados para maiores de 120 anos acompanhados dos
pais.
Pulando para a segunda metade do Século XX: havia uma crença, nem sempre explícita, de que crianças não podiam querer, não sentiam, não tinham de gostar ou desgostar de coisa nenhuma. “Criança não tem querer! E cala essa boca ou vou até aí calar”.
Essa era uma
frase edificante de então.
Só que, no meu caso, eu sentia que meus
pais me amavam e eu a eles, apesar das esculhambações e das horas de castigo
olhando para a rachadura da parede, onde fiz amizade com algumas lagartixas, que ficavam ali me consolando com aquelas carinhas simpáticas, me presenteando
com moscas e aranhas que eu polidamente recusava para não perder aquelas novas
amizadezinhas fiéis.
Nos aniversários, meu pai colocava
histórias infantis na radiola (toca-discos em móvel de madeira). A
molecada inteira da rua se juntava para ouvir os finais felizes e melosos,
todos lambuzados de doce e ki-suco.
À noite, minha mãe e minha avó sempre me contavam histórias, sem saber que eram adaptações de contos tenebrosos capazes de tirar o sono de qualquer criança.
Ou adulto.
Isso já me consola o suficiente por
não ter nascido na Europa medieval.
Hoje em dia é bem maior a quantidade
de gente defendendo a liberdade e os direitos das crianças, mas, na minha
época, as coisas ainda não haviam evoluído tanto.
Minha geração experimentou a maravilha de viver com medo de um monte de seres que levariam para sempre meninos e meninas maus de três anos de idade.
Eram táticas eficazes até os nossos cinco anos, depois eram substituídas por chineladas no traseiro, cintadas nas pernas ou beliscões perenes nos braços.
Minha prima, no auge dos seus 3 anos, vivia se mijando pernas abaixo todas as vezes em que era ameaçada pela chegada de uma bruxa que a levaria para fervê-la em seu caldeirão.
Bastava a recusa da
menina em ir se deitar que alguém, inteligentemente, fazia um toc-toc escondido,
anunciando que a bruxa já estava à porta.
Quer coisa mais singela para criar
uma pessoa corajosa?
Eu e minha irmã morríamos de medo de
um tal juiz que minha avó inventou. Naqueles tempos, sempre que a programação
infantil da TV terminava, aparecia um certificado carrancudo da Censura Federal
(essa sim, uma bruxa), com uma voz de vampiro avisando que assistir aquilo era
proibido para crianças.
Como meninos curiosos, queríamos ficar por ali para ver do que se tratava.
A tática de minha avó era dizer que um juiz ia aparecer com a polícia, como fez na casa da vizinha, para prender crianças desobedientes que ainda não estivessem na cama dormindo sem fingir!
Nem
quero pensar no que o tal juiz poderia fazer se nos apanhasse no sofá
assistindo coisas de gente grande!
Fico pensando até hoje que pornografia era aquela que minha avó e minhas tias velhas podiam ver e nós não.
Safadinhas.
O juiz e a polícia ficaram para sempre em minha mente como seres perigosos, que podiam entrar em nossas casas e nos condenar à prisão perpétua sem processo.
A isso depois se somaram os
artigos do AI-5.
Minha irmã mais nova tinha disenteria só de ouvir falar no homem do saco, um velho fictício e fedorento que colocava meninos teimosos e malcriados dentro de um saco de aniagem encardido e os levava sabe-se lá para onde.
Tudo coisa bem leve, para que a imaginação infantil se
incumbisse de criar cenas edificantes e construtivas.
Havia na cidade um velho parecido com a descrição do tal homem do saco. Era um pobre coitado, inofensivo, fugido de algum hospício, que vivia rindo e cantando pela rua: “eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato”.
Carregava um saco
vazio, um guarda-chuva esburacado e usava chapéu de palha. Um dia apareceu na
nossa rua. Eu, o filho mais velho e mais desalmado, peguei minha irmã e a levei
para ver o homem. “Olha, aquele é o Cueca!”
Pronto. Trauma eterno. A pobrezinha
passou a se borrar não apenas pelo homem do saco, mas também pelo Cueca.
Viram como é eficaz assustar
crianças?
Elas ficam quietinhas, enquanto seus
responsáveis (ou irresponsáveis) têm sossego para fazer o que precisam sem
aporrinhação. Depois elas que se virem, pagando psiquiatras e psicólogos e
terapias e cristais e florais e benzedeiras e xamãs.
Vamos aos dias atuais.
O folclore brasileiro tem uma imensa
quantidade de seres disponíveis para acalmar a criançada, mas
ultimamente, eles têm sido tratados com humor, irreverência e como “carinhas
legais”.
O curupira protege as florestas, o
saci-pererê é um fanfarrão, a mula-sem-cabeça-que-solta-fogo-pelas-ventas é uma
gozação (que ventas, se ela não tem cabeça?), o boitatá não sai mais do
cemitério, o lobisomem deixou de aparecer faz tempo, a cuca virou um jacaré
engraçado de televisão e o bicho-papão é de pelúcia azul e fofinho.
Mesmo as histórias afro-brasileiras, as
nativas e as lendas urbanas - como a loira-do-banheiro e o homem-da-capa-preta
- já não assustam. As crianças veem coisas bem piores na internet desde o dia
em que aprendem a colocar o dedinho engordurado na tela do celular.
Aqui em Portugal os seres imaginários
são muitos e bem mauzinhos. As crianças daqui devem ter sofrido, embora hoje em
dia devem rir-se muito deles.
Alguns têm características semelhantes às criaturas folclóricas do Brasil, o que não é de se espantar. Seguem alguns:
O Tardo é um tipo de duende
que importuna quem fica na cama depois de um pesadelo; parece ser amigo do Insonho,
um bicho que tenta tapar a boca do dorminhoco, mas não consegue porque tem um
buraco no meio da mão.
A Maria Gancha é um ser
maléfico com braços de gancho, que mora no fundo dos poços, invocada pelos pais
para assustar as crianças e evitar que se aproximem dos reservatórios de água e
lá morram afogadas. Pelo menos a ideia era salvar os meninos e não eliminá-los.
É que já havia mais comida na mesa.
A Bisarma é um fantasma enorme
que canta em decibéis insuportáveis, enquanto a Cabra Cabriola é um
bicho monstruoso e comedor de crianças.
O Corredor é um lobo feioso, metamorfose
de um menino cujos padrinhos erraram ao rezar o Credo no seu batizado.
Os Fogachos são alminhas-penadas
em forma de luz, pertencentes às crianças que morreram sem batismo.
Há mais um punhado, como a Coca
(que no Brasil é a Cuca), os bichos-papões (que também andam por aí), os
Trasgos, o Corrilário, as Aventesmas, o Bicho-Cidrão,
o Verdugo-Barbudo, o Cavalo-do-Pensamento, a Peeira, a Velha-da-Égua-Branca,
o Dragão-Volante, a Alma-de-Mestre, a Besta-Ladradora e
mais uns sessenta outros, sem exagero.
De tudo o que se apresenta acima, o
melhor é que estamos evoluindo.
Em meio à resistência dos negacionistas
e reacionários, a educação dos pequenos vai avançando.
Muitos pais entendem a importância da
escola, têm a humildade de reconhecer que não sabem tudo e que precisam
aprender com quem estuda.
Bom projetos educacionais aparecem, há políticos que aceitam a ciência e a implementam com bons resultados.
Hoje as
lendas e os seres mitológicos apenas encantam e divertem, são engraçados e não
estão dispostos a amedrontar ninguém.
Só que ainda há muito para ser feito.
Há que proteger as crianças das
comunidades desfavorecidas, que volta e meia ocupam os jornais como vítimas do monstro Bala-Achada, mesmo quando vão ou voltam da escola.
Precisamos aceitar que as vacinas são
seguras e salvam vidas, permitindo erradicação de doenças que matam ou
prejudicam o desenvolvimento de nossos filhos e netos, vítimas da bruxa Negacionista.
É preciso expandir o acesso aos
livros, inclusive aos impressos, bem como preparar e remunerar melhor os
professores e as professoras, para escaparmos do monstro da Ignorância.
E vamos contar histórias mitológicas
a nossos filhos, vamos entretê-los com fantasias divertidas, fazê-las refletir
sobre o respeito à diversidade e ao meio-ambiente, em vez de reprimi-las.
Há boas sementes plantadas no meio de
algumas ervas-daninhas que ainda persistem em nascer no escuro, mas não
passarão. São os fantasmas das Ditaduras, que ficarão para sempre, esses sim, encerrados nos porões.
Recomendo o livro Bestiário
Tradicional Português, As Criaturas Fantásticas do Imaginário Popular,
compilação de Nuno Matos Valente e ilustrações de Natacha Costa Pereira.
Esse texto é uma homenagem a duas professoras maravilhosas que tive: Dona Lia, minha querida do primeiro ano, hoje com mais de cem anos e completamente igual; e Dona Marly Salim, nossa contadora de histórias na biblioteca da Escola Bias Fortes, atividade que, de longe, era a que eu mais gostava, ainda mais por causa do jeito que ela tinha (e tem, com certeza) para contar fábulas e lendas. Nunca esqueci essas duas.
Um
obrigado imenso por terem feito de mim um contador de histórias, ainda em
construção, como sempre.

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