DA BELEZA DO LINHO
À FEIURA DAS PESSOAS
Dizem que fiar o linho é uma arte complicada, ou seja, não é tarefa simples fazer fios delicados com as mãos a partir de um bolo arrepiado de fibras, para que sejam trançados com esmero até se transformarem num valioso tecido.
Fiar o linho fino, então, é para
poucos.
Em Portugal, usava-se a expressão
fiar fino, como forma de dizer que as coisas iam sair do terreno da
brincadeira para o campo da seriedade.
- Menino, se chumbares o ano
terás de fiar fino comigo! Assim ameaçavam as mães quando os rebentos
ameaçavam tomar bomba na escola.
Não sei se a expressão ainda é
usada. Eu, pelo menos, nunca a ouvi, mas a encontrei num livro de lendas que
ando a visitar.
Uma lenda grega diz que os deuses
do Olimpo, quando obrigados por seres ainda mais poderosos, eram capazes de
fiar o linho bem fino, além dos raríssimos artesãos mortais que dominavam a
arte.
Como tudo o que circula por anos
a fio (fio, aqui, bem oportuno), a frase fiar fino acabou modificada para
piar fino, ou seja, falar calmamente, sem gritos. Aliás, típico dos que
têm razão ou anseiam, estrategicamente, por tê-la.
Há muitas histórias e lendas que
envolvem o linho, planta herbácea da família das lináceas, que nos oferece um
tecido que nunca sai de moda, amarrota à toa e, por isso mesmo, é chique como o
seu nome científico: Linum usitatissimum.
Outros tecidos não podem aparecer
amarrotados em ocasiões formais, sob pena de esculacho. O linho não só pode
como deve.
Quando digo que não sai de moda,
não é balela. Há registros de que era cultivado no Egito desde 2.500 anos antes
de Cristo, um judeu pobre que provavelmente não o usava, uma vez que o seu
reinado não era desse mundo, como os de Herodes e de César.
Em Portugal, um farrapo de linho
foi encontrado no Algarve, berço da lenda de hoje, datado da idade do bronze
mediterrâneo. Sua fabricação era tão esmerada que indicava uma técnica
desenvolvida séculos antes.
A lenda de hoje se chama AS
FIANDEIRAS, que encontrei na obra de Theófilo Braga, Contos Tradicionais do
Povo Português.
É assim:
Há muitos anos, havia uma mulher
que tinha uma única filha e, como todos daqueles tempos, seu sonho era vê-la
bem casada.
Por algum motivo que deve ter se
perdido entre um narrador e outro, a tal mulher resolveu ir ao bazar comprar
uma pedra de linho, pois, segundo ela, sua filha era capaz de fiar
aquilo tudo, e muito bem, num único dia. Não se sabe de onde ela tirou essa
ideia.
O homem achou aquilo estranho (se
não achou, deveria ter achado), mas vendeu o chumaço de linho à mulher,
que, ao chegar em casa, mandou que a filha o transformasse inteirinho num lindo
fio, pronto para ser tecido. Tudo num só dia.
Conta a lenda que a menina
sentou-se à entrada da casa e desabou no choro. Entre uma lágrima e um ranho, aproximou-se
uma velha feia, que quis saber o que se passava.
A pobre jovem, depois de explicar
que não sabia fiar e que seria castigada pela mãe, ouviu da velha que ficasse
tranquila, pois ela, a senhora, faria o trabalho, desde que no dia do casamento
da jovem ela a tratasse por tia três vezes (esse número três não falha
uma lenda).
Imediatamente, a menina olhou
para dentro de casa e viu aquele monte de fiapos totalmente transformado num
longo e bonito fio.
Pensam que ela se safou?
A mãe chegou em casa, viu aquele
belo trabalho sobre a mesa e ficou encantada, atribuindo o feito a algum
talento que pensava que sua filha tivesse.
No outro dia, lá se foi a mulher
outra vez ao bazar para comprar mais um chumaço de linho, não sem antes dizer
ao comerciante que sua filha era um portento na difícil arte de fiar o linho bem
fino.
A menina fez a mesma coisa.
Atarantada, sentou-se à soleira e chorou até aparecer outra velha, mais feia
que a primeira. Depois de saber o que acontecia, a senhorinha prometeu fiar
aquilo tudo se a menina a chamasse de tia três vezes no dia de seu casamento.
Com a aceitação da menina, aquela
pedra de linho transformou-se em um longo fio, fino e perfeito.
A mãe não cabia em si de contente.
Por isto, comprou outra pedra de linho, mandando a menina fiar a mais não
poder.
Desesperada, a menina deve ter
pensado que àquela altura o estoque de velhas feias da cidade tinha acabado e,
de novo, caiu em prantos.
Acabou nada. Apareceu uma
terceira velhinha, dessa vez a mais feia do estoque da cidade. Não nos
esqueçamos que isso é uma lenda, onde muita coisa gira em torno do número
três.
Ao saber do que se passava, esta
também fez um encanto e deixou tudo bem fiado, pedindo em troca a mesma coisa
que as demais.
A mulher, ao ver tanto linho bem
fiado, contou o fato para tanta gente que acabou despertando a curiosidade do
comerciante, que quis conhecer a jovem. Quando a viu, o homem se apaixonou e
logo a pediu em casamento, o que foi prontamente aceito pela mãe, pois o
burguês era rico o bastante.
Como presente, o noivo ofereceu à
noiva uma quantidade enorme de rocas e fusos, para que ela e as criadas fiassem
à vontade e em grande quantidade. Até agora não sei se era um presente para
ela, que aparentava gostar de fiar, ou para ele, que provavelmente
sonhava em vender toneladas de fios finíssimos de linho.
Naquela época as coisas não se
demoravam como hoje e logo um banquete foi organizado para a festa de
casamento.
No dia da festa, centenas de
convidados estavam no salão para o jantar, quando ouviu-se uma batida à porta.
Foram atender e era uma velhinha, feia de doer, perguntando se ali era a festa
de noivado da jovem fiandeira.
A noiva, reconhecendo sua
primeira benfeitora, foi atendê-la, dizendo: entre, tia; sente-se aqui, tia;
coma alguma coisa, tia. Promessa era dívida.
Ninguém entendeu de onde saíra
aquela tia velha, dona de um nariz pendurado. Nem a mãe da noiva
conhecia aquela mulher!
Não deu tempo nem para iniciarem
o jantar quando bateram à porta outra vez. Era outra velhinha, mais feia ainda,
dona de um queixo despencado. A noiva atendeu dizendo entre, tia; sente-se
tia; coma algo, tia.
Por pouco a mãe da noiva não
perdeu a paciência. Aliás, já a ia perdendo quando bateram à porta de novo. A
mulher chegou a dizer: será que não vamos comer hoje, Deus do céu?
A noiva atendeu e era outra
velha, ainda mais estranha que as duas primeiras. Tinha uma corcova imensa e
costelas à mostra.
- Entre, tia; sente-se aqui,
tia; coma qualquer coisa, tia, repetiu a jovem.
O noivo e alguns convidados
mal-educados resolveram perguntar às velhinhas porque tinham tantos problemas
no nariz, no queixo e nas costas.
A primeira, sem demonstrar
ressentimento com a grosseria dos burgueses, respondeu que tinha o nariz
daquele jeito porque fiou muito linho vida afora e as arestas acabaram lhe
danificando o rosto.
A segunda, também naturalmente,
disse ao noivo que ficou com o queixo despencado por riçar os tomentos ao
fiar linho por toda a vida (riçar os tomentos seria algo como arrepiar a
parte áspera do linho).
A terceira, sem se dar por
rogada, disse que ficou corcunda e com as costelas à vista porque fiou muito
linho e sempre levava a roca amarrada à cintura.
O noivo, espantado com a
aparência das três velhas bondosas, pegou nas rocas e nos fusos que comprou e
lançou tudo fora, quebrando as peças e atirando tudo num barril de lixo na rua.
- Porque fizeste isso? Perguntaram os convidados e a aparvalhada mãe
da noiva.
- Ora, e eu lá vou querer que
minha linda esposa fique como essas três velhas? Seria uma desgraça!
Assim termina a história, que
traz consigo uma necessidade de a entendermos à luz (ou às trevas) daqueles
tempos, provavelmente a Idade Média.
Com as lentes de hoje vemos preconceitos,
machismo, etarismo (discriminação pela idade das pessoas) e unatractifobia
(discriminação pela aparência).
Essas lendas são de um tempo longínquo
e acabam ficando um pouco desconexas, o que as torna mais divertidas. São todas
nascidas em vários pontos do mundo, onde vão ganhando e perdendo elementos.
O Ministério do Bom Senso
adverte que contar essa lenda para crianças exige a ressalva de que algumas
maldades citadas aconteciam há muito tempo, quando as pessoas achavam normal
discriminar os outros. Hoje a discriminação ainda existe e é mais velada, o que
não a torna mais bonita.
Ou nem sempre é velada, pois temos
é visto coisas.

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