CANIBALISMO: FICÇÃO E
REALIDADE
A série espanhola “A Sociedade da
Neve” (Espanha, 2023) é um primor em termos de roteiro, atores, direção,
tudo. Não sou especialista, embora adore cinema, mas posso dizer que essa série
valeu muito a pena ver.
Eu devia ter uns 11 anos, em 1972, quando vi na TV as notícias sobre o voo do Uruguai para
o Chile, que caiu numa geleira na Cordilheira dos Andes, levando a bordo um
time de rugby.
A série aborda a
luta dos sobreviventes pela vida. É uma história trágica, não recomendada para fracos
do estômago ou do coração.
Falo desse
assunto porque que os sobreviventes praticaram canibalismo até serem resgatados.
Se você ainda
não viu vale a pena ver, especialmente pelos detalhes impressionantes proporcionados
pela excelente direção pela interpretação magistral dos atores.
Não estou dando spoiler,
o fato é real e está arquivado nos jornais, rádios e televisões do mundo
inteiro.
Canibalismo é um
assunto polêmico, mexe com profundas convicções e arraigadas crenças, atingindo
as funduras da base cultural de todas as civilizações atuais.
Esse assunto é
também o tema de um filme feito em Portugal em 1988, com direção do festejado
cineasta português Manoel de Oliveira, morto aos 106 anos em 2015.
O roteiro da
ópera-filme foi baseado num conto português que tem autor e tudo, ou seja, não
é uma lenda, mas uma história ficcional com escritor conhecido.
Nem só as historietas passadas
oralmente há séculos contêm fantasias macabras. Há várias obras, de autores bem
identificados, muitos famosos, que retratam a mesma fartura de devaneios.
É quase certo que tais histórias,
mesmo tendo autor conhecido, acabam retirando elementos fantásticos dos contos
sem dono que circulam feito fantasmas pelas aldeias do mundo.
A macabra história que deu origem
ao filme foi escrita por Álvaro do Carvalhal, um jovem talentoso do
século XIX, morto com apenas 24 anos, vítima de aneurisma.
A tenebrosa ficção foi inserida -
após a morte do autor - numa coletânea publicada em 1868, denominada Contos.
O nome da história é Os
Canibais.
Era uma vez uma jovem, de nome Margarida,
que se apaixonou por um homem misterioso, conhecido por Visconde de Aveleda.
Nada mais se sabia sobre ele, exceto o fato de que era riquíssimo e excêntrico.
O triângulo amoroso se completava
com um outro jovem, de nome Dom João, que amava Margarida sem ser
correspondido.
Numa noite, durante um baile no
palácio da família, Margarida conseguiu se aproximar do poderoso Visconde,
quando se apresentou e se declarou.
Tarde da noite, enquanto o baile
prosseguia no Palácio, Margarida e o Visconde foram para o jardim, onde
acabaram se beijando.
A cena foi observada por D. João,
que seguiu Margarida às escondidas.
Assim que o Visconde subiu para o
Palácio, D. João, corroído pelo ciúme, interrompeu a caminhada de Margarida,
ameaçando-a: “se te casares com esse homem, eu mesmo hei de matá-lo”.
E não é que aconteceu mesmo o
casamento do Visconde com a jovem Margarida?
Foi uma grande festa, com muita
gente.
D. João estava entre os
convidados, pois era próximo da família.
Findas as cerimônias e as
festanças, uma tragédia desabou sobre o palácio.
O fato começou nos aposentos designados
para os dois.
Antes de consumarem o matrimônio,
o Visconde resolveu confessar à esposa o maior de seus segredos, ele que já
tinha incontáveis em torno de si.
O que poderia ser tão grave?
Tinha a ver com a sua fortuna, seu passado oculto? Ou com a sua família, que
ninguém conhecia?
O que o Visconde tinha para
contar era algo muito pior que qualquer coisa criada pela mais fértil
imaginação.
Foi uma confissão praticamente com
gestos.
Lentamente, o Visconde começou a
desmontar um tipo de estrutura que o sustentava, arrancando braços e pernas
falsos e atirando-os longe. Logo apareceu um corpo sem forma, mutilado, um monstro.
A pobre Margarida, ao ver aquilo,
fugiu para o jardim. Nos aposentos, o Visconde ficou desesperado ao se ver culpado
pela imensa repugnância causada na jovem.
Assim, com esforço, o mutilado
homem arrastou-se para fora do quarto e atirou-se às chamas de uma grande
lareira no corredor, onde morreu queimado.
D. João mais uma vez assistiu a
tudo, pois estava escondido no quarto do casal, armado, com a intenção de matar
o Visconde. Quando viu o seu inimigo pegando fogo, o jovem desceu apavorado as
escadas do palácio e foi até o jardim à procura de Margarida.
Se pensam que o horror termina
aí, saibam que isso está apenas começando.
Logo na manhã seguinte, o pai de
Margarida, acompanhado por outros dois filhos, subiu aos aposentos do casal à
procura da filha e do genro.
Pai e filhos passaram ao lado da
lareira onde o Visconde morrera queimado e, num tétrico mal-entendido, pensaram
que aqueles restos no meio das brasas eram carnes assadas para o desjejum,
colocadas ali pelos serviçais. Assim comeram, sem saber, os restos do Visconde
de Aveleda.
Em seguida os três entraram no
quarto, onde não havia ninguém. Logo ouviram o estampido de um tiro vindo dos
jardins.
Pai e filhos desceram rapidamente
e encontraram uma cena terrível: os criados seguravam dois corpos, o de
Margarida, já sem vida, e o de D. João, agonizante, com um tiro no peito.
Em seus últimos minutos de vida,
D. João conseguiu revelar que Margarida, ao correr pelo jardim, havia tropeçado
e batido a cabeça na quina de um banco de pedra, o que a matou de imediato.
Contou também que, com a amada morta, decidiu que devia se matar com um tiro no
peito, o que acabara de fazer.
E ainda teve tempo, antes do
último suspiro, de contar que o Visconde morreu queimado após se atirar às
chamas da lareira.
Ao ouvirem isso, o pai e os filhos
perceberam que a carne assada que comeram eram os restos do Visconde. Diante de
verdade tão repugnante, decidiram que deveriam morrer.
Atarantados, os três dirigiram-se
ao interior do palácio.
Algo, no entanto, interrompeu a
ideia dos aturdidos homens, pouco depois que chegaram ao salão principal.
Mesmo com todo aquele movimento
dos criados para a retirada dos corpos e com a chegada da polícia, um
magistrado solene adentrou os jardins do palácio.
O enviado da Justiça subiu ao
salão e informou aos três senhores que o Visconde de Aveleda nunca teve filhos
nem parentes conhecidos e que, por isso, toda a imensa fortuna daquela pobre
alma seria herdada por eles.
Não ficou claro, na história, o que
se passou na mente daqueles três homens quando receberam a notícia, antecedida
por tantos acontecimentos tenebrosos.
Só se sabe que, de imediato, os
três correram em direção ao magistrado e o devoraram.
Esta é uma obra de ficção, mas a
série Sociedade da Neve, citada no início, é um caso real, que levou pessoas
comuns a praticarem um ato que considerariam macabro e antiético em condições
normais.
E os protagonistas da ficção
portuguesa?
Agradeço ao Projeto Livro
Livre, de Iba Mendes, pela imagem (foto 3) e pelo download do conto Os
Canibais, de Álvaro do Carvalhal.
Jairo Attademo tem um canal sobre Lendas e Histórias no
Youtube, que pode ser acessado aqui: CANAL LENDAS & HISTÓRIAS
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