GENTE MÁ NO MUNDO É MATO
A
história de hoje é cheia de surpresas.
Era
uma vez um casal que tinha três filhas, uma delas adolescente.
O pai
era rico, a família morava na cidade e tinha uma fazenda no campo.
Todos
os verões a família viajava para o campo.
Numa
dessas ocasiões, a mais velha quis ficar um pouco mais, sob a alegação de aprender
a cozinhar com a governanta, mas o real motivo era um jovem por quem se
apaixonou e com quem se encontrava às escondidas.
Tendo
a permissão dos pais, a jovem foi contar à governanta que iria ficar. Enquanto
conversavam, a menina espetou o dedo numa roca de fiar. Um fiapo de madeira entrou debaixo da unha da
jovem, que imediatamente desmaiou, caindo num sono profundo do qual a
governanta não conseguiu acordá-la.
A pobre
senhora, preocupada, tentou de tudo, inclusive ervas aromáticas, mas nada.
Com
medo de que alguém visse a menina naquele estado, a mulher conseguiu levá-la
para uma clareira no bosque, onde a colocou sobre uma cama de galhos.
Pela
manhã, a velha voltou, mas a menina ainda dormia. Assim foi em todos os outros
dias.
Certo
dia, a governanta morreu repentinamente na mansão. O capataz enviou uma carta
ao patrão, contando o ocorrido e a
família
partiu para a fazenda à procura da filha.
O
jovem por quem a menina se apaixonara era um príncipe, mas a menina não sabia, pois
ele queria manter o segredo.
Houve
uma ocasião em que ele precisou viajar, o que afastou os dois namorados por
muito tempo. Quando regressou, o jovem quis logo rever a amada. Procurou-a em
todos os lugares onde se viam e nada. Resolveu pernoitar no bosque, pois não
era seguro cavalgar à noite naquelas trilhas cheias de ladrões.
Chegando à clareira, viu a jovem dormindo e não entendeu nada. Tentou acordá-la e não conseguiu.
A manhã chegou e lá estava a jovem do mesmo jeito. O jovem e o seu criado passaram a ir todas as manhãs para o bosque, alegando que iriam caçar,
mas ficavam ao lado da jovem o dia inteiro.
Certo
dia, ele notou que a barriga da moça aumentava.
Enquanto
isto, os pais da menina procuravam a filha nos arredores, mas ninguém a vira. O
capataz, coitado, nem sabia que a jovem tinha ficado na fazenda.
O
tempo passou e a barriga da menina só aumentava. O príncipe sabia que era o
pai, pois estiveram muitas vezes juntos às escondidas. Nasceram três crianças.
O
jovem passou a ir todos os dias ao bosque para cuidar dos meninos. À noite, o
criado revezava-se com ele.
No
castelo, a megera perguntava a todos o que sabiam sobre os sumiços do príncipe.
Ninguém sabia nada. O filho dizia que eram só caçadas.
Lá no
bosque, as crianças já engatinhavam.
Uma
vez um dos pequenos brincava naquela cama vegetal quando resolveu pegar na mão
da mãe adormecida. Acabou tirando, sem se saber como, uma ferpa da unha da
jovem. Era o espinho enfeitiçado. A jovem, então, abriu os olhos e deparou-se
com a cara do príncipe pertinho da sua.
O
jovem contou-lhe tudo e a menina abraçou os filhos, cujos nomes eram Cravo,
Rosa e Jasmim.
A rainha
viu o criado no castelo e perguntou: por onde andaste todo esse tempo?
- Sempre
nos afazeres, sua majestade, minha senhora, respondeu o moço.
- Diga-me
por onde anda o meu filho, pois nunca o vejo, mandou a monarca.
- Eu
não tenho servido a seu filho há muito tempo, majestade, mentiu o criado.
Entrementes, na
clareira, a jovem pegou os três filhos e voltou para a mansão da família,
levada pelo príncipe.
O capataz
logo a reconheceu e a abraçou. A jovem contou tudo o que havia lhe acontecido.
No dia seguinte, o jovem disse à amada quem ele era e que precisava voltar ao castelo, mas que antes teria de passar numa grande feira de variedades para encontrar um sábio que o aconselhasse sobre o que fazer.
Perguntou à amada o que ela desejava da feira.
Aurora
(até que enfim apareceu o nome dela) pediu uma saia de guizos.
Dias
depois chegava pelo criado uma maravilha de saia, cheia de guizos, como ela
queria.
O
príncipe, que se chamava Heitor, precisou ficar mais tempo no castelo a serviço
da mãe, que o enchia de compromissos para que não saísse. Talvez assim ela
sossegasse o espírito, se é que tinha um.
A
rainha ficava o dia inteiro atrás dele perguntando sem parar:
- Por
que desapareceste? Foram meses numa rotina fora do normal! Se eu descobrir que
andas a tramar tomar-me o reino, mato-te antes!
Certa
noite, Heitor não foi para o quarto. Tinha saudade de Aurora e dos meninos e
ficou na sala de música.
Lá, pegou numa garrafa de vinho e bebeu tudo, pegando no sono numa cadeira.
A rainha,
passando pela sala, resolveu cochichar no ouvido do filho:
-
Heitor, o que fazias na floresta?
O
rapaz, dormindo embriagado, disse, sem querer:
- Ai
de mim! Cravo, Rosa e Jasmim.
- Quem
são esses? Perguntou a rainha.
O
jovem, dormindo, murmurou:
-
Saudade de vocês, meus filhos, saudade de ti, Aurora.
Pronto. Segredo descoberto.
A megera mandou Heitor para uma viagem, chamou o valete do
reino e perguntou:
-
Conheces alguma Aurora nas redondezas?
O
valete respondeu que era uma das filhas do fazendeiro dono daquela mansão
enorme perto do bosque.
A rainha mandou-o ir até lá descobrir se havia alguma Aurora vivendo na mansão com três filhos pequenos com nome de flor.
Se sim, ele deveria lhe dizer que o príncipe o mandou levar os bebês para a Rainha conhecer, pois Heitor havia contado tudo para a mãe, que estava muito feliz.
O
homem chegou à mansão e chamou Aurora, que veio com os meninos. O valete falou sobre a sua missão. A jovem não se animou, mas o capataz disse que era prudente enviar
os meninos, pois seria bom a rainha conhecer os netos.
No
castelo, o valete levou as crianças até a rainha.
Sem
olhar para os netos, a megera chamou a cozinheira e ordenou:
-
Coloca essas criaturas na sopa de hoje e cozinha-as bem.
A
cozinheira, apavorada, levou os três.
Quando
o príncipe chegou, a maldosa monarca mandou servir o jantar, virou-se para o filho e mentiu:
- Mandei-te
fazer uma sopa para acalmar-te o estômago. Come, come, filho meu, come que é
tudo teu.
Aquela
sopa acabou causando uma doença no príncipe, que acabou acamado.
A
megera mandou o valete buscar Aurora para o seu casamento com o príncipe.
Claro
que era mentira, mas a moça, com saudade, vestiu a sua saia de guizos e foi.
Quando a jovem mãe chegou, a rainha levou-a para o jardim, onde a agrediu, jogando-a em cima de uma mesa.
Aurora conseguiu se levantar e as duas rolaram pelo chão.
O barulho dos guizos da saia de Aurora chegou até Heitor, que estava de cama, mas levantou-se e desceu, encontrando-as engalfinhadas.
Logo
ele as separou e mandou que amarrassem a mãe para que se controlasse. Em
seguida chamou o valete e todos os criados.
A
rainha começou a gargalhar. Parecia ter enlouquecido quando contou a Heitor que ele havia comido os próprios
filhos naquela sopa.
Nesse
momento, a cozinheira interveio e disse que as crianças estavam seguras, pois ela
as escondera.
O
Conselho foi chamado e ouviu a todos.
A rainha foi condenada à prisão perpétua no calabouço do castelo, onde ficou sem ver o sol por trinta anos e de onde só saiu morta, já fedendo.
Aurora
e Heitor casaram-se com a presença da família da jovem e de todos os criados.
No casamento, o príncipe foi coroado rei, Aurora rainha e a cozinheira nomeada
ama da nova soberana.
E
assim a família não viveu feliz para sempre, porque isso não existe. Ainda mais
num reino com gente tão esquisita.
Foram inseridos cenários,
personagens e costuras à narrativa original, para parecer um pouco mais
verossímil, na tentativa de fazer o leitor viver uma fantasia com alguma lógica, se é que isso é possível em lendas, ricas exatamente por nascerem do disse-me-disse secular, com seus acréscimos e modificações. Pelo menos é o
que eu acho.
Assista essa história no YouTube:

Comentários
Postar um comentário
Comentários agressivos serão automaticamente eliminados. Obrigado.