Quem somos os burros?
QUEM SOMOS OS
BURROS?
As patuscadas na vida política
têm sido tão frequentes e as maneiras de praticá-las são tão inacreditáveis que
chegamos a pensar que estamos vivendo numa Terra plana que nem pé-chato.
A Terra não é plana, mas
precisamos admitir que tem ficado mais chata. São cenas que seriam divertidas
se não fossem trágicas, mas mesmo assim pegamos nossa pipoca para assistir aos shows de trapalhadas
políticas.
E por que essa introdução?
Estava eu procurando lendas
portuguesas e uma fonte me mandou uma fábula sobre um burro que falava.
É difícil adivinhar em quem eu
pensei, especialmente nesses tempos bicudos, onde um monte de gente anda
merecendo o apelido, inclusive eu. Ou principalmente.
É que nós temos o hábito de chamar
de burros os praticantes de atos pouco inteligentes. Dizemos que fazem asneiras,
atitudes falsamente atribuídas aos asnos.
Quando queremos ofender os pouco
afeitos aos estudos, os tachamos de jumentos. Quando erramos em algo, fazemos
besteira, coisas que seriam, injustamente, feitas por bestas.
Antes de trazer a fábula,
apresento-vos Dilfênio Romero, o criador da Associação dos Amigos do Burro, a
Burrolândia, que existe há mais de vinte anos em Três Cantos, na província de
Madrid, Espanha.
Dilfênio lida com todo tipo de animais
de quatro patas, principalmente burros, cavalos, jumentos e asnos. Visitantes
humanos podem até reservar um passeio por lá. Dizem que é divertido.
Segundo o benfeitor, chamar de
burro um ser humano que faz coisas pouco espertas não passa de mito
(desculpe a palavra).
Seus estudos mostram que o burro
é bem mais inteligente que o cavalo. E ele exemplifica: se você tem vários
cavalos e coloca um burro no meio deles, em uma semana todos estarão seguindo o
burro.
Não pensem bobagem. Ele disse
isso literalmente.
Quer mais uma prova da
inteligência do burrico? O Sr. Dilfênio tem.
Antigamente, diz ele, quando ainda
não existia a engenharia das estradas, um burro era mandado para o local onde
precisavam fazer uma. Ele era seguido por vários dias e o caminho por onde
andou sempre era o melhor para construir a rodovia.
E ainda existe, no local, a burroterapia,
tratamento que o Sr. Dilfênio se refere como muito útil para as crianças com
problemas de ansiedade, depressão, autismo e outros males dos homens. É só
ficar com eles e tudo vai se acalmando.
Vamos à lenda envolvendo um burro, enviada por uma fonte que desconfio tê-la inventado, com base num filme cujo personagem principal é um burrinho chamado Baltazar (A Grande Testemunha/Au Hasard Balthazar, De Robert Bresson, França-Suécia, 1966).
Ou no Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, onde vive um burro falante.
Como é uma narração que nos vai fazer pensar, aí está ela, mesmo podendo ser invenção da minha fonte.
Aliás, quais são as lendas que não foram inventadas?
Numa pequena aldeia portuguesa
vivia um burro, de nome Baltazar. Não era um burro comum, pois, além de comer
capim, carregar coisas e encontrar bons caminhos, ele sabia falar.
Um dia, o burro decidiu dar um
passeio pela aldeia e surpreender os habitantes. Deve ter pensado: cansei de
falar sozinho e ninguém me entender aqui nesse curral.
Assim, foi até a praça central,
onde sempre tem gente conversando, negociando e falando mal da vida dos que
acabam de sair da rodinha.
Sentou-se num banco do jardim, o que já chamou a atenção dos moradores. Afinal, sentar não é exatamente uma atribuição de um burro de carga.
Pois sentou e ainda abriu um jornal.
Abriu e começou a ler!
E colocou uns óculos enormes, verdes, de plástico, que achou num
lixo numa quarta-feira de cinzas.
Os moradores foram se aproximando daquela cena inusitada, sem acreditar no que viam: um burro, de patas cruzadas, sentado, lendo um jornal, usando óculos!
Não eram bem óculos funcionais, é
verdade, mas conferiam ao equino uma certa dignidade intelectual.
Quando já se formava uma rodinha
bem concorrida em torno da gentil e orelhuda criatura, o burro começou a falar
sobre a guerra na Alemanha, a carestia, a corrupção e outras coisas que estavam
nas manchetes.
Por cerca de um minuto, as
pessoas nada fizeram além de abrirem a boca, branquearem a cara e pendurarem os
braços. Algumas babaram.
Eu disse um minuto, não foi? Exagero.
Em trinta segundos, todos saíram numa correria atarantada, uns
gritando, outros persignando-se. Uma velha tropeçou no terço e caiu de boca na
grama. Um homem subiu numa árvore sem saber como, já que há anos puxava feio de
uma perna.
Somente as crianças, sempre elas,
ficaram ali. Para elas, tudo é plenamente normal. Meninas e meninos dos 6 aos 12
anos se aproximaram e sentaram-se à volta do simpático ser.
A mais atirada delas, sardenta e
de cabelo vermelho, perguntou ao digno quadrúpede:
- Olá, senhor, como te chamas?
- Baltazar, respondeu o equino.
Se fossem adultos, iam logo
querer saber como era possível um burro falar, mas eram crianças. Então a
sardentinha continuou:
- O Sr. Baltazar sabe contar
histórias?
- Claro, respondeu o burrinho
mais simpático que um dia alguém já viu.
Baltazar contou suas estripulias de quando ainda era filhote, disse que adora maçã e coisas doces, contou piadas de salão, fez trocadilhos e comentários engraçados sobre a vida de todos da aldeia, especialmente os que o maltratavam com pedradas, queixou-se do seu atual dono, que além de lhe bater, só lhe dava capim para comer.
As crianças se
divertiam e suas risadas ecoavam pela praça.
Aos poucos, os medrosos adultos foram voltando.
Algumas mães e pais tentaram tirar os filhos de perto daquela
aparente aberração, mas a criançada não quis arredar pé.
- Olha mãe, ele é bonzinho, dizia um menino com seus oito anos, nariz escorrendo.
- Sim, senhora, não precisa ter
medo. Eu só falo coisas boas, disse Baltazar, piscando o olhão para as
crianças, que deveriam guardar aquelas fofocas para si, numa cumplicidade
equino-homo que se iniciava.
A simpatia dele era tanta que alguns resolveram ficar por ali.
Uns trouxeram café e bolachas, outros levaram cestas de maçãs que o burrinho agradecia no mais elevado patamar de gentileza.
E assim passou a tarde mais curiosa e agradável que a aldeia já tinha vivido.
As notícias sobre o burro falante espalharam-se rapidamente para as aldeias vizinhas e até mesmo para as cidades grandes. Pessoas vinham de muito longe para conversar com Baltazar.
Algumas pediam-lhe
conselhos sobre resiliência e relacionamentos, outras o ouviam falar da
necessidade de se entender a natureza e seus segredos.
O resultado não podia ser outro. Baltazar acabou, sem querer, fazendo com que a aldeia ficasse popular e prosperasse. Chegavam milhares de turistas o ano todo, hotéis foram inaugurados, restaurantes, pousadas, postos de gasolina.
E olha que nem existia
televisão e redes sociais naquela época.
O burrinho tinha uma vida confortável.
Não que precisasse de dinheiro ou de casa, mas era tratado com respeito e
carinho por todos, que sempre o entupiam de guloseimas e presentes.
Chegou a ganhar um terno sob
medida, feito pelo alfaiate Tatão, o mais respeitado da região, uma cartola e
uma bengala, para conferir um ar ainda mais nobre ao jovem quadrúpede, que
apenas agradecia, como é o costume desses animais.
No entanto, nem todos estavam felizes.
Havia nas redondezas um feiticeiro que vivia com seus ogros, uns monstrengos
horríveis que não podiam com a luz do sol. Moravam todos numa cabana feia,
fedorenta e cheia de aranhas, no fundo da floresta.
O bruxo, inconformado com o dom
inexplicável de Baltazar, muniu-se de cordas e chicotes, chamou seus ogros e
esgueirou-se pelas paredes da aldeia, no escuro, para capturar o gentil
personagem que sempre dormia no Hotel da Praça, convidado permanente do
proprietário.
Na verdade, o burro dormia do
lado de fora do hotel. Não cabia lá dentro, embora gostasse da ideia de ser
hóspede.
O feiticeiro queria, de todo
jeito, descobrir o segredo de Baltazar. Assim, enquanto o burro dormia (e os
burros dormem pesado), ele amarrou suas patas. Lentamente, os ogros arrastaram
Baltazar até uma carroça, onde o colocaram e o puxaram até a cabana da
floresta.
Baltazar ficou do lado de fora,
amarrado num tronco de árvore. O feiticeiro passou dias tentando descobrir qual
era o segredo que o fazia falar. E tome bruxedos, encantamentos e poções
amargosas que o burro era obrigado a beber.
Nada dava certo, a revelação nunca chegava, nenhuma epifania. O feiticeiro chegou a se sentir ridículo ao tentar falar com os outros animais, pensando que eles poderiam revelar o segredo do amigo.
Nada.
Finalmente, frustrado e cansado, o narigudo e horrível feiticeiro desistiu. Libertou Baltazar, que desde o dia em que lá chegou, não pronunciou nenhuma sílaba.
Pelo menos o bruxo não era tão
mau a ponto de querer matar o pobre.
Quando o burro voltou para a aldeia, encontrou todos aliviados e felizes.
Só que uma coisa aconteceu.
Baltazar
já não conseguia mais falar. Parece que as poções de gosto ruim, os
encantamentos soprados em suas orelhas e as maldições acabaram com a sua
possibilidade de continuar falando com humanos.
Contudo, o legado de Baltazar o
fez continuar sendo amado por todos na aldeia, onde as pessoas cuidavam dele e lhe agradeciam por todos os momentos engraçados e pelo progresso que ele trouxe,
mesmo sem querer, para a aldeia, agora elevada a vila.
O tempo passou, todos os personagens morreram,
como infelizmente acontece, inclusive Baltazar, o feiticeiro e os ogros.
Naqueles tempos, existia naquela
aldeia uma coisa que anda escassa no mundo: a gratidão. Será que se fosse hoje,
o burrinho viveria feliz até o fim de seus dias?
Acho que não.
Nós, humanos, não
somos assim, tão praticantes da humildade e da gratidão comum aos burrinhos,
cavalos e jumentos, que nunca falaram conosco, mas têm uma inteligência e uma
sensibilidade que desprezamos.
Afinal, quem são os burros mesmo?

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