Quem foi Pedro Sem?

 

QUEM FOI PEDRO SEM?




São incontáveis as lendas baseadas nas religiões que existem mundo afora.

São contos que mantêm a coesão de povos inteiros, adeptos das mais diversas crenças que os ajudam a entender os mistérios da natureza e a confortar os seus corações, mas que também foram responsáveis pela conquista de terras e tesouros por meio de guerras sangrentas.

O imaginário popular é pródigo, a fé das pessoas é uma musa inspiradora, mas o interesse dos donos do poder por esses contos é enorme, pois reforçam a submissão de povos inteiros, mundo afora, história adentro.

Hoje trazemos a lenda de um homem muito ambicioso e sem fé. Como podemos antecipar, vai ter de engolir, por ordem de Deus, o pão que o Diabo amassou.

Nos tempos em que o Rio Douro ainda era um riacho, havia na cidade do Porto um homem muitíssimo rico, dono de muitas propriedades, todas conquistadas com o sofrimento de muita gente, já que Pedro – este era o nome dele – fez fortuna emprestando dinheiro aos desesperados, cobrando juros que só não superavam os do cartão de crédito do Brasil.

Como as pessoas, por norma, não tinham como pagar, Pedro lhes tomava os bens e os negociava com mercadores estrangeiros, ficando cada dia mais rico e mais ganancioso, alimentando uma viciosa bola de neve.

Os ricos inventaram que a riqueza não traz felicidade, exceto para eles. Portanto, vamos ver que isso, nas lendas, se reafirma.

Pedro, que nascera pobre, possuía um dom impressionante para os negócios. Ficara rico, tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, mas vivia triste, não por falta de um amor, já que ele não perdia tempo com isso. 

Pedro desejava ardentemente por um título de nobreza, mas a Corte o via apenas como um reles mercador. O Rei, então, nem sabia da sua existência.

Um título nobiliárquico poderia dar ao agiota o poder de dominar amplas extensões de terra e extorquir as pessoas mais livremente, já que a justiça da época, sabemos todos, fazia vistas grossas aos poderosos.  

Certa vez, um homem, endividado até os cachos da peruca, teve a infeliz ideia de pedir um empréstimo a Pedro, uma pequena fortuna que deveria acalmar os seus credores, já dispostos a cobrá-lo por meios nada agradáveis.

É importante dizer que o tal homem pertencia à nobreza e, portanto, tinha terras e tesouros suficientes para fazer inveja aos muambeiros de joias de certas repúblicas modernas.

Para azar do nobre senhor, os seus credores só aceitavam moeda corrente, o que lhe exigiria a venda de muitos pertences familiares. 

Mas vender para quem, se quase todos andavam de pires na mão naqueles tempos de escassez?

Assim, com um plano bem urdido, Pedro salvou a pele do nobre devedor e lhe emprestou a enorme quantia. Vamos ver que plano era esse.

O nosso personagem sabia que o nobre não honraria a dívida tão cedo e esperou alguns meses para começar a cobrá-la.

O aflito senhor tinha uma filha que andava pela casa dos quinze anos, já atraindo pretendentes. 

Pedro, então, colocou sorrateiros espiões para vigiar a jovem e descobriu que ela era apaixonada por um cavaleiro misterioso, talvez até inexistente, enquanto o pai ansiava para que algum ricaço lhe pedisse a mão da moça para melhorar as condições da família.

Assim, Pedro deu o bote.

Foi até o homem e comprometeu-se a extinguir toda a dívida se a menina lhe fosse dada em casamento. 

Não que estivesse apaixonado, pois, repitamos, Pedro não era dado a esses devaneios. 

Ele sabia que, casando-se numa família nobre, teria o seu sonhado título nobiliárquico para participar da refinada elite que vivia atrás de benesses reais.

O nobre devedor queria coisa melhor para a filha, mas diante do miserê que se abatia sob o seu teto, achou razoável ceder. 

Quem não deve ter achado a coisa nada razoável foi a menina, que ansiava por seu amado cavaleiro.

Quase esperneando, a moçoila acabou se casando com Pedro, um homem nada atraente, com idade para ser seu pai, sem atributos de intrepidez e possuidor de uma cara semelhante à de um rato magrelo.

Como em muitas lendas, essa também traz uma festança das boas. Pedro escolheu para o local da cerimônia uma fazenda que possuía em frente ao mar.

As lindas casas avarandadas da propriedade estavam todas enfeitadas com flores, bandeirinhas e até tochas e imensas fogueiras, que seriam acesas para o momento da celebração, marcado para a noite, sob um céu que se anunciava estreladíssimo. 

Nada poderia dar errado.

Caravelas, naus e barcos de todos os tipos trouxeram os mais de dois mil ricos convidados, quase todos da noiva, já que Pedro não tinha amigos nem parentes, mas apenas devedores, que queriam distância dele. 

Assim, aquelas embarcações ficaram nas imediações, ajudando a enfeitar o cenário.

O Cardeal fez o casório e a festa durou mais de quinze dias. 

Mataram sabe-se lá quantos bois e porcos, trouxeram incontáveis barris de vinho e o rei até enviou a orquestra do Castelo.

Ainda no meio da festa, o título de Marquês de Mar Adentro foi concedido a Pedro, numa cerimônia presidida pelos escriturários do Rei.

Pedro exultava. 

Aquela era a maior conquista que um plebeu poderia experimentar na vida. Tomado por uma imensa excitação, o nosso personagem acabou cometendo o pior erro que um recém-nobre poderia ter cometido.

Sentindo-se poderosíssimo, Pedro deixou os convidados aos cuidados uns dos outros, todos se servindo do bom e do melhor, tomou a mão da sua agora esposa - que permanecia emburrada - subiram num alazão e foram até o pico do monte mais alto da propriedade. 

Até aqui, nada preocupante.

Desceram do cavalo. 

Pedro girava a sua esposa no ar, que, agora, além de mais emburrada, ficou tonta. De repente, soltou a jovem, jogou os braços para cima e proferiu uma frase que nunca deveria ter dito num lugar tão alto e em brados tão poderosos:

- Neste momento, declaro que sou o homem mais poderoso do mundo e ninguém, nem mesmo Deus, poderá fazer-me pobre outra vez.

A jovem esposa e os convidados que sobraram da festa contaram que, naquele instante, o céu se abriu num imenso buraco, de onde começou a cair uma poderosa chuva de granizo acompanhada por trovões, raios poderosos e ventos nunca vistos por ninguém naquelas plagas.

Ondas de não se sabe quantos metros inundaram o local, faíscas do céu atingiram os silos cheios de capim ainda seco e um terror inusitado provocado por fogo e água ao mesmo tempo, aterrorizou os nobres e bêbados convidados, que cambaleavam também devido aos tremores de terra.

Muitos morreram naquela noite. Poucos conseguiram escapar da fúria de Deus, que, nessas lendas, é bravo que nem, ainda mais com quem se atreve a subir num monte tão alto, tão perto d’Ele, para proferir coisas tão desagradáveis.

O maremoto e as faíscas caíram sobre todas as propriedades do nosso personagem, onde quer que ele as possuísse. 

Salvaram-se bois e vacas, cavalos e éguas, porcos e porcas, galos e galinhas. De resto, não ficou pedra sobre pedra. 

Tesouros foram soterrados a uma profundidade tal que nunca mais puderam ser encontrados. A água do mar salgou todas as terras, que, por muitos anos, foram deserto.

Pedro se salvou, mas acredita-se que não por algum tipo de misericórdia divina. 

Virou andarilho, andava aos farrapos, descabelado, sujo e totalmente desdentado. Por muitos anos foi visto mendigando pela invicta cidade do Porto, dizendo:

- Uma esmola para o Pedro Sem, que um dia teve tudo e hoje nada tem.

A ingratidão não é uma boa coisa e não é necessário ser religioso para saber disso. 

Além disso, reconhecer a falibilidade como uma condição humana pode ajudar a manter pelo menos os dentes da gente mais ou menos no lugar.

ADVERTÊNCIA

Essa é uma lenda popular que circula há anos, mas aqui está escrita com exageros literários e generalizações, sem pretensão de acurácia, mas de apenas divertir. E nunca existiu nenhum Conde de Mar Adentro.

 

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