Deu ruim: foi mexer com o sagrado e teve um azar dos diabos

 

DEU RUIM! MEXEU COM O SANTO E TEVE UM AZAR DOS DIABOS

  

                                 



Cheguei a Portugal há um bom tempo. Morei em Odivelas, onde existe uma localidade que se chama Senhor Roubado, conhecida estação do metrô de Lisboa.

 Ao ouvir “próxima estação, Senhor Roubado”, ponderei com os meus botões o que aconteceria se, no Brasil, nomeassem os locais com base nos fatos que neles ocorrem. 

Os vereadores não fariam outra coisa, se é que fazem.

Claro, como morador antigo de São Paulo, imaginei que a estação tinha esse nome porque um senhor fora ali assaltado.

 No primeiro mundo um assalto é tão raro que vira nome de estação, pensei.

 Desci na estação, estava perto de casa. Não vi nenhuma placa, nem estátua, nada, que fizesse referência à vítima ou ao ladrão.  A única coisa diferente que notei foi um monumento em azulejos portugueses, muito bonito, lembrando um altar católico.

Talvez algum nobre tenha sido vítima de salteadores, lá na Idade Média.

 Fui para casa, como já deveria ter ido.

Quem me conhece sabe o tamanho da minha curiosidade, que só não é menor que a minha imaginação.

Fui descobrir porque alguém colocaria um nome daqueles num local tão simpático.

 Os portugueses adoram colocar nomes esquisitos nas localidades, mas vejam só quem diz: um cidadão de um país onde há cidades chamadas Pescador, Sem-Peixe, Pintópolis e Virginópolis, isso para ficar só nessas quatro.

 Pasmem com o que vem por aí. O nome da tal estação não deriva de nenhuma lenda. É uma história documentada.

 No Século XVII, em maio de 1671, o padre da Matriz de Odivelas anunciou que várias peças, de inestimável valor, foram levadas da sua igreja.

 “No meu tempo não havia disto”, diriam os mais velhos, como sempre dizem os mais velhos, sobre coisas que não teriam ocorrido nos seus tempos, mas que ocorriam até mais do que nos tempos dos mais jovens.

Semanas depois, alguns moradores do local acharam as peças sacras enterradas perto de um mosteiro, ao lado da igreja. 

Não demorou muito e encontraram o larápio. Lá estava ele, furtando umas galinhas no mesmo mosteiro. Era um conhecido andarilho da região, que vivia à procura do que comer.

 Agarrado em flagrante, o meliante acabou confessando o furto das peças e de um saco de hóstias, que foram obviamente degustadas. 

Fico arrepiado só de imaginar as técnicas usadas na época para arrancar a confissão.

Antônio Ferreira era o nome do esfomeado que achava que peças sacras, galinhas e hóstias tinham o mesmo valor.

 Foi julgado e condenado por nada mais nada menos que o Tribunal do Santo Ofício e todos sabemos que essa instituição judicial não era exatamente famosa por emitir sentenças leves.

O grande azar de Ferreira foi que, entre as peças surrupiadas, havia um Crucifixo, provavelmente bento e o Santo Ofício não titubeou: condenou o blasfemo à fogueira, com direito a público para aplaudir.

Devido à repercussão do caso, Lisboa nomeou o local como Senhor Roubado. Senhor, no caso, é o Senhor Jesus, não um mero mortal de quem teriam batido a carteira.

O monumento a que me referi no começo é o padrão do Senhor Roubado, o marco que eu procurava e nunca ia encontrar se não fosse buscar a história.

Coitado do Antônio Ferreira, foi mexer com coisas santas e teve um azar dos diabos.

VEJA ESSA HISTÓRIA NO YOUTUBE

Comentários

MAIS LIDOS

A Porca de Murça

Quem foi Viriato?

Uma História Mágica