Agora é tarde, Inês é morta

 

AGORA É TARDE, INÊS É MORTA.


Assim dizem os brasileiros e não dizem os portugueses.

A maioria dos portugueses não conhece a frase "agora é tarde, Inês é morta", que os mais velhos usam tanto no Brasil.

Claro que alguém deve conhecê-la em Portugal, afinal existem mais de dez milhões de portugueses.

Os portugueses mais velhos podem até se lembrar de alguém que tenha proferido algo parecido sobre uma Inês que teria morrido e que, consequentemente, não carecia de mais nada, nem mesmo de carpideiras sobre o seu cadáver.

Eu mesmo repeti “ad nauseam” esse provérbio que quer dizer qualquer coisa como já não adianta fazer mais nada, já foi, já passou, esquece isso, não tem mais jeito.

Os brasileiros, na sua maioria, usam a frase e nem se dão ao trabalho de saber quem era a infeliz falecida, de onde veio, para onde foi e se morreu de morte matada ou morrida.

Claro que no Brasil alguém deve conhecer a história. Existem mais de duzentos milhões de brasileiros.  

Inês era uma linda portuguesa que viveu no século quatorze.

A sua malfadada vida motivou a famosa frase que portugueses não usam, mesmo conhecendo a história, e os brasileiros abusam, mesmo desconhecendo de quem se trata.

Um dia talvez alguém explique porque essa frase se popularizou tanto no Brasil, considerado descoberto apenas no Século dezesseis, duzentos anos depois.

Aí vem história.

Era uma vez, em Portugal, lá no século quatorze, um Rei chamado Afonso, casado com dona Beatriz.

Os dois tiveram sete filhos, mas, que pena, quase todos morreram ainda novinhos.

Quando D. Afonso morreu, a Coroa passou para o seu único herdeiro, um rapaz de nome Pedro.

Esse foi o D. Pedro primeiro de Portugal, porque o D. Pedro primeiro do Brasil foi o quarto de Portugal e nasceu bem depois.

Um dia, o jovem Pedro I de Portugal, ainda príncipe, casou-se com uma jovem chamada Constança, uma infeliz nobre que vivia num Castelo, como acontece nos contos de fada. Era prisioneira do Rei castelhano, que não quis se casar com ela.

O pai de Constança, para tirar a filha daquele lugar, acabou arranjando um casamento para ela. E o noivo era o jovem Pedro, príncipe de Portugal. O casamento foi feito por procuração, mas nem casada a menina pôde ver o seu marido. O Rei de Castela não permitiu que Constança deixasse as suas terras. Eram assim as coisas para as mulheres naquela época. Ainda hoje acontecem coisas semelhantes a isto com elas, em vários lugares do mundo. Um horror.

No entanto, uma desavença estourou entre os reinos de Portugal e de Castela por conta disso tudo.

Pedro queria a sua esposa, o Rei castelhano não liberava, um puxava de cá e outro de lá.

A situação só melhorou entre os reinados devido à ameaça feita pelos mouros de voltar a assumir as terras dos dois. Nada como um inimigo comum para pacificar tudo. Diante dessa ameaça, os reis de Portugal e Castela uniram-se e enfrentaram juntos os mouros. E venceram.

Até que enfim Pedro conseguiu se aproximar de Constança. O casamento de verdade aconteceu em Lisboa.

Tudo era festa e alegria e os dois pareciam que iam viver felizes para sempre. Só que não. Este não é um conto de fadas. A vida prega peças nos pobres e nos nobres. Vamos saber o que houve.

Após casada, Constança seguiu para Portugal levando consigo uma comitiva de cuidadores. Com eles ia uma ama, futura fonte de encrencas. O seu nome era Inês de Castro, uma jovem muito admirada por sua beleza.

Dom Pedro esqueceu-se de Constança tão logo deitou os olhos nos olhos e em mais algumas partes de Inês. Um romance para lá de escandaloso começou a acontecer nos escuros corredores e arrecadações do palácio real. Nenhum debaixo de escada, fundo de cortina ou armário de vassouras era suficiente para aqueles dois.

Como dizia um certo presidente brasileiro dos anos noventa, era nitroglicerina pura.

Constança, que não era parva, percebeu a coisa toda. Então resolveu convidar a amante do marido para ser a madrinha do primeiro herdeiro do príncipe. A ideia não era má. Segundo o costume da época, uma comadre, no caso Inês, não poderia ter intimidades de alcova ou de armário de vassouras com o compadre, no caso, o príncipe. Seriam vistos como pecadores incestuosos.

Só que não adiantou nada.  

O bebê morreu. Morriam muitos bebês naquela época. Mas mesmo se não tivesse morrido o rala e rola ia continuar como continuou. A fofoca na corte real correu ainda mais desembolada. E como desgraça pouca sempre foi bobagem, o pai de Pedro, o Rei Afonso IV, não gostou nem um pouco dessa história do seu filho com a ama Inês de Castro.

Sabem por quê?

A jovem Inês, amante de Pedro, era filha natural de um cavaleiro da Galícia, um nobre que desejava que Portugal passasse a pertencer ao reino de Castela. Uma petulância. Ele e os seus filhos desejavam que o rei Afonso Quarto, conhecido como o Cruel, deixasse a coroa e virasse s
údito do rei castelhano. É claro que isso tinha tudo para dar ruim.

“Nem pensar”, pensou o Rei português. “Preciso pensar em alguma coisa”.

Um dia, a esposa de Pedro, Constança, morreu. Nem chegou a ser Rainha de Portugal. O príncipe Pedro, agora viúvo, saiu do armário das vassouras com a sua querida Inês, e tornaram público tudo aquilo que faziam às escondidas também debaixo das escadas e atrás das cortinas.

Dom Afonso Quarto morria de medo que o seu filho, herdeiro do trono português, fosse influenciado por Inês, filha do nobre galego que queria entregar o reinado para Castela. Sendo assim, mandou exilar a jovem num castelo na fronteira com Castela. Pelo jeito, a pobre Inês não se metia em política e só queria ficar ao lado do seu amado Pedro.

E lá no Castelo foi largada a apaixonada Inês.

Pensam que a coisa acaba assim tão fácil?

De jeito nenhum. Paixão é que nem fogo morro acima e água morro abaixo. Pedro nunca aceitou o exílio da sua amada e tudo ele fez para que ela voltasse. E ela voltou, deixando o rei ainda mais furioso.

Um rei furioso, conhecido pela alcunha de cruel, nunca ia dar em coisa boa. Quando dom Afonso concluiu que os dois eram inseparáveis, acabou apelando para a ignorância. Vamos ver o que ele fez.

Certo dia, vendo que o seu filho estava numa caça, Dom Afonso mandou três homens de sua confiança matarem Inês. Assim, a pobre jovem apaixonada foi assassinada covardemente no jardim, por três marmanjos sem coração.

Não dá nem para imaginar o que Pedro sentiu quando chegou no Palácio e viu a sua amada morta. Entrou num conflito horroroso, arranjou uma confusão dos diabos, que só acabou quando dona Beatriz, a Rainha-mãe, mandou que os dois acabassem com a guerra, que já estava causando problemas para o reinado.  

Como ninguém fica para semente, um dia, até que enfim, Dom Afonso morreu. Portugal tinha agora um novo Rei, Dom Pedro primeiro. Mas uma surpresa ainda ia recair sobre a nobreza e os plebeus de Portugal.

Pedro e Inês tinham se casado às escondidas no período em que viveram juntos, depois da morte de dona Constança.

Pedro sonhava em reinar ao lado da sua querida Inês. E, assim que subiu ao trono, tomou uma providência considerada terrível! Mandou caçar como bichos os homens sem coração que mataram a sua amada.

Diz a história que Pedro não tinha um temperamento dos melhores e era dado a explosões de raiva. Por outro lado, é visto como um monarca importante, que deixou um legado de desenvolvimento econômico durante os dez anos em que reinou. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Era vingativo e pronto.

E foi numa dessas explosões que, diante dos assassinos de Inês capturados e amarrados, Pedro mandou que lhes fossem arrancados os corações. Dizem que enquanto a carnificina ocorria, Pedro jantava assistindo àquilo tudo.  Afinal, os matadores de Inês tinham coração, mas foi nesse dia que ficaram sem ele.

Pensam que isso bastou para Pedro? Não! Aí é que vem a cereja por cima desse bolo ensanguentado.

Contam que, ainda não satisfeito, Pedro mandou os serviçais desenterrarem o esqueleto de sua amada. E para quê? Para vesti-lo com os trajes de rainha e colocar naquele monte de ossos uma coroa e um anel.

Com o esqueleto de Inês enfeitado e sentadinho no trono ao lado do Rei, Pedro mandou que a corte inteira, do valete ao bobo, dos conselheiros às duquesas, todos, sem distinção, fizessem uma fila para beijar a mão da rainha dos ossos.

Entre cochichos podiam-se ouvir as críticas por tamanha destemperança. Eca, beijar osso, diziam alguns. Que nojo, diziam outros. De nada adianta tudo isto, se agora Inês é morta? E foi assim que nasceu esse ditado.

Pode ser que haja alguma coisa de lenda no meio disso tudo, mas a história faz sentido e mereceu até longa referência nos Lusíadas, de Luis de Camões.

Pedro era um jovem apaixonado, poderoso, de temperamento forte. Amou e foi amado como poucos e fora contrariado a vida toda. É bem capaz que tenha mesmo desenterrado Inês e a transformado na Rainha Cadáver de Portugal.

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