A pobre menina e o mendigo safado
A POBRE MENINA E O MENDIGO
SAFADO
Estava mexendo nos meus alfarrábios quando encontrei um
livro curioso, chamado Contos Tradicionais do Povo Português, Volume
1, da Coleção Clássicos da Literatura Portuguesa, edição do Agrupamento de
Escolas de Rio de Mouro.
O pesquisador e profícuo escritor dessa obra fabulosa foi
Teófilo Braga, nascido nos Açores, na belíssima cidade de Ponta Delgada, Ilha
de São Miguel, em 1843.
O seu
nome completo era Joaquim Teófilo Fernandes Braga, um
poeta, filósofo, ensaísta e advogado.
Vale a pena detalhar um pouco sobre ele sem me estender.
Por que é preciso discorrer um pouco mais?
Simplesmente porque Theophilo Braga (como ele assinava as
suas obras) foi, nada mais nada menos, que o primeiro Presidente da República
Provisória de Portugal, em 1910, sucedendo ao último Rei, D. Manuel II.
Cinco anos depois, assumiu a presidência mais uma vez,
porém por poucos meses, um mandato tampão para substituir o então presidente
Manuel de Arriaga, deposto na Revolta de maio de 1915.
Esta foi a última função política de Teófilo.
Cabe dizer que Theophilo Braga foi um exímio pesquisador
e admirador do folclore e da cultura portuguesa.
O livro a que me refiro teve a sua primeira edição em 1883,
outra em 1914 e, por fim, essa a que tive acesso, em 2013.
Há nessa raridade literária uma série de lendas,
histórias e contos criados e adaptados pelo povo português no decorrer dos
últimos séculos. E não é só isto. O autor explica as coincidências entre lendas
de diversas épocas e países, faz paralelos com a literatura infantil europeia e
diz de onde cada lenda vem.
Dentre tantas, há uma que se chama...
O SURRÃO
Nome que se dava
antigamente à bolsa de couro que os pastores usavam para levar o de comer.
Também pode significar roupa suja, gasta, maltrapilha e, no caso dessa lenda,
os dois significados caem bem.
Conta a lenda que morava numa aldeia uma viúva muito
pobre, mãe de uma única jovem que nunca saía de casa.
Certo dia, as meninas do lugarejo foram até à senhora
pedir para que deixasse a filha ir com elas ao rio, na véspera de São João, dia
sempre muito festejado em Portugal.
A rapariga foi, talvez não muito feliz por ter de
sair de perto de sua mãe. Chegando lá, acabou se divertindo nas águas do rio
com as amigas.
A jovem, inexperiente, foi aconselhada por uma colega a deixar os seus brincos sobre uma pedra, para que não se perdessem na correnteza.
Sábio conselho.
Só que nem tanto.
Sem que pudessem ver, pois estavam distraídas a jogarem
água umas nas outras, um homem bem velho se aproximou e roubou os brincos da
pobre rapariga, jogando-os dentro do seu surrão (eis que aparece o
personagem).
A menina conseguiu ver o velho se afastando e notou a
ausência dos seus brincos sobre a pedra. Vestiu-se rapidamente. Afobada, saiu
correndo atrás do homem. Só que já ia longe.
A nossa heroína não desistiu e continuou perseguindo o
velho, que tomou uma atitude. Talvez pensando que seria inútil continuar correndo - a menina era muito mais jovem - ele partiu para um truque. Disse:
- Anda cá, rapariga, eu desisto, vou entregar-te os
teus brincos, mas tens de buscá-los dentro deste surrão.
A jovem não raciocinou direito e entrou naquele enorme
embornal para pegar a sua pequena joia de estimação.
O velho fechou imediatamente o surrão e prendeu a pobre
criatura lá dentro. Devia ser forte o danado, porque colocou o saco nas costas
e partiu levando a menina com brincos e tudo.
Entrementes, as suas colegas, apavoradas, foram ter com a
viúva e contaram a ela o sucedido.
A mãe desesperou-se e, chorando muito, mostrou que não
tinha a menor esperança de rever a filha. Sabe-se lá onde a jovem teria ido
parar! Teria sido raptada? Caíra nalgum buraco? Fora pisoteada por cavalos?
Enquanto isso, o velho, já muito distante da aldeia,
abriu o tal surrão e falou para a mocinha:
— Veja lá, pá. Daqui para a frente vais ajudar-me a
ganhar dinheiro, pois estou cansado de pedir esmolas e quase nada ganhar.
- O que terei de fazer? Perguntou a pobre menina.
- Vou à Vila levando-te dentro desse surrão; quando eu
disser a frase “Canta surrão, senão levas com o bordão”, terás de cantar aí
dentro com força! E ai de ti se não me obedeceres.
Assim, o velho andava pelas vilas a mandar o surrão
cantar. Todos ficavam maravilhados com aquele milagre e enchiam o chapéu do
velho com moedas.
“Como pode, um surrão
cantar tão bonito?” Assim
diziam homens, mulheres e crianças.
Certo dia o velho, ao entrar numa terra em que a sua fama já
havia chegado, havia uma multidão o esperando para conferir o milagre do surrão
que cantava.
O velho, aproveitando-se do fato de ter tanta gente
disposta a encher o seu chapéu com moedas, levantou o bordão (um pedaço de
pau) e repetiu o terrível verso: “canta, surrão, senão levas com o
bordão!”
A menina, já cansada de tanto sofrer, cantou outra
melodia. Lá de dentro daquele saco imundo saiu o seguinte:
- “Estou metida neste surrão, onda a vida perderei, por
amor dos meus brinquinhos, que eu na fonte deixei.”
No meio do povo havia um soldado que foi logo contar o
caso ao seu chefe.
À noite, o investigador foi ver onde o mendigo estava
hospedado. Encontrou uma pousada apontada pelos moradores da vila como o lugar
onde o velho estava.
A dona do lugar prometeu que assim que o velho dormisse,
iria examinar o que havia no surrão. E cumpriu o dito. Viu lá dentro a pobre
jovem, abatida, triste e doente.
A senhora contou para a autoridade o que encontrara. Os
soldados resgataram a menina, que, enfim, contou o que se passou, falando sobre
a mãe, uma pobre viúva que a essa altura deveria estar desesperada.
As autoridades já tinham ouvido falar do triste caso da
viúva cuja filha foi raptada.
A sentença do velho não foi fácil.
Enquanto o velho dormia, os soldados encheram o surrão
com todo tipo de porcaria que podemos pensar (sim, inclusive cocô).
Pela manhã, o velho pegou o surrão e foi à praça para
exibir o milagre mais uma vez. Disse as palavras e nada. Silêncio. Deu
com o bordão no saco e, de novo, nada.
Bateu de novo e então, eis que toda aquela porcaria
fedorenta esparramou-se pelo chão.
Autoridades e povo mandaram o mendigão comer
aquilo tudo. Após ter deixado o chão limpinho, o sujeito foi mandado para a
cadeia e a menina foi levada para casa, onde se encontrou com a mãe e viveram
felizes para sempre.
O velho? Bem, deve ter mofado na cadeia, pois era assim
naquela época.
Assim termina a lenda do Surrão Cantor.

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