A Padeira de Aljubarrota

 

 

A PADEIRA DE ALJUBARROTA

 



 

O pão é um elemento importante, mas é tão comum que pouco se fala dele, exceto quando queremos comprá-lo, comê-lo e, em alguns casos, fazê-lo.

Contudo, não é sempre assim. Muita coisa já foi falada e ainda se fala sobre esse personagem antigo, versátil, útil, humilde, barato, histórico e tradicional.

Ele aparece dos versículos da Bíblia a obras profanas, protagonizando ou coadjuvando livros, músicas, lendas e filmes de todos os gêneros e estilos. 

Aparece, infelizmente, na voz suplicante das vítimas da aporofobia, cada vez mais visíveis e, infelizmente, desprezadas.

Há uma enorme quantidade de livros onde o pão é o título ou parte dele. Os filmes também são muitos, assim como as músicas que levam o seu nome.

Com certeza há muitos contos, fábulas, poesias e lendas sobre essa maravilha proveniente do trigo, cevada, centeio, milho e mandioca, trabalhada há milênios por mãos africanas, europeias, americanas, asiáticas, oceânicas, nativas, colonizadoras e escravizadas.

Mãos habilidosas que experimentam, pesquisam e nos entregam uma miríade de sabores, cheiros, texturas e cores diferentes, que acompanhamos com manteiga, sopa, mel, carne, linguiça, café, queijos, creme de amendoim, mortadela, fiambre, enfim, com o que quisermos, preferencialmente partilhando.

Essa introdução foi para trazer uma lenda portuguesa que envolve uma mulher valente, muito antiga, que exercia com talento o ofício de fazer pão.

O seu nome era Brites de Almeida. Talvez tenha nascido em 1350, quem sabe em Faro, no Algarve, sul de Portugal. Tudo o que se diz sobre ela é cercado de condicionais, pois nesse caso a história se fundiu com a lenda.

Há quem afirme que Brites existiu em carne e osso e, como veremos, em mais carne e valentia que em osso.

Dizem que era feiosa, grandona, assimétrica, de nariz grande e boca ainda maior, tudo emoldurado por um monte de cabelo desgrenhado. Contam que tinha seis dedos em cada mão.

A nossa personagem ficou órfã aos vinte e seis anos. Dizem que os seus pais morreram de tristeza porque a filha não era tão trabalhadeira como deveria ser uma pessoa com tantos dedos.

Com os pais mortos, Brites vendeu tudo o que tinha e saiu pelo mundo. 

Certa vez, enfiou a espada na barriga de um pretendente abusado e o matou. 

Tentou fugir para a Espanha, mas não conseguiu chegar lá, pois o barco em que viajava foi atacado por piratas. 

Brites foi amarrada e vendida como escrava para um homem muito rico.

Após resistir a sofrimentos que nem sequer conseguimos imaginar, Brites de Almeida foi morar na localidade de Aljubarrota, no centro de Portugal. Lá ela acabou arranjando um marido e decidiu abrir uma padaria.

 Tempinho para explicar:

Aljubarrota é o local onde houve uma batalha muito importante em 1385 e que durou apenas uma tarde. Foi uma quebradeira dos diabos entre portugueses e castelhanos, que sempre quiseram anexar o território de Portugal ao reino de Castela.

O Rei português da época, Dom Fernando I, havia morrido sem deixar herdeiros homens, tendo a sua única filha se casado logo com o Rei de Castela, Dom João I.

Por ter se casado com a filha do rei morto, dom João I de Castela achava que também era dono de Portugal. Tentou tomar tudo, cercou Lisboa, mas perdeu para a peste-negra e para a resistência portuguesa.

 Mas ele era mais insistente que a própria peste.

No ano seguinte, voltou o Rei João-Chato de Castela, apoiado pelos franceses. Veio com uma imensa cavalaria. 

Veio, viu e perdeu. 

Os portugueses tiveram ajuda dos ingleses e, mesmo com um exército muito menor, venceram os castelhanos com táticas de guerrilha até hoje consideradas impressionantes. 

Os tais de Castela não deram nem para o cheiro.

Assim, a Batalha de Aljubarrota, também chamada Batalha Real por ocorrer entre dois reis, acabou de vez com as tentativas castelhanas de dominar Portugal.

 Pronto. Voltemos à padeira Brites.

Segundo a lenda, Brites de Almeida saiu da padaria e foi para o campo de batalha ajudar os seus conterrâneos a defender o reinado português. 

Dizem que distribuiu muita pancada, pontapé, facada, espadada e sopapos. Os castelhanos fugiram apavorados e foram se esconder onde dava.

Sete deles tiveram a brilhante ideia de se esconder na padaria da senhora Brites de Almeida, sempre de portas abertas, mesmo quando a dona resolvia dar uma saidinha para espancar uns castelhanos.

Numa escuridão de dar dó, os sete desventurados entraram, fecharam a porta e esconderam-se no enorme forno, obviamente apagado. 

Que ideia de jerico.

A padeira, voltando para casa, achou que alguma coisa estava errada, pois a porta da padaria estava fechada e isso nunca acontecia. A mulheraçona arrombou a entrada com um chute e, acostumada a andar no escuro, logo deu com os sete soldados escondidos no forno.

Brites mandou que eles saíssem, mas as criaturas ficaram lá, ainda mais quietas e provavelmente pensando que iriam morrer.

A mulher cutucou os caras com uma enorme pá de madeira que usava para assar  pães. Tanto cutucou que eles acabaram saindo. E saíram querendo briga.

Ao se ver diante de sete soldados castelhanos avançando sobre ela, a nossa padeira rodou a pá para todo lado. Deu bordoadas tão poderosas que nenhum deles ficou vivo para contar a história. 

Matou todos e ainda os assou com pão e chouriço. 

Pelo menos é o que diz a lenda.

Depois disso, a padeira de Aljubarrota parece ter tomado gosto pela vida de guerreira, pois fundou um exército de mulheres para expulsar quem se atrevesse a invadir Portugal. 

E dizem que elas não eram de brincadeira.

Essa é a lenda da Padeira de Aljubarrota e, como toda boa lenda, pode estar carregada nas tintas com alguns exageros, mas há quem diga que o fato realmente aconteceu.  

 No entanto, é fato incontestável que as mulheres nunca foram o sexo frágil.


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