A bela adormecida de Portugal
A BELA ADORMECIDA PORTUGUESA
Essa lenda
está dividida em capítulos. Não porque seja comprida - e ela é - mas
porque seus desdobramentos impressionantes merecem alguma pausa para reflexão.
1 - ENTRE O CAMPO E A CORTE
Era
uma vez um casal que tinha três filhas, duas pequenas e uma adolescente.
O pai
era um rico negociante e a mãe era voltada aos afazeres domésticos. A família
possuía uma mansão no campo, muito distante da cidade, onde moravam num
verdadeiro palacete.
Todos
os anos, a família viajava para o campo nas férias. As meninas se divertiam na
fazenda brincando com as outras crianças e ajudando a cuidar dos animais.
A
fazenda tinha capataz e trabalhadores, enquanto a mansão era cuidada por uma velha
governanta e suas auxiliares.
2 – A ROCA E A JOVEM
Certa
vez, a filha mais velha quis ficar um pouco mais no campo, alegando interesse
em aprender a cozinhar com a governanta, uma verdade parcial. O motivo mais
forte a jovem não contou para ninguém.
Na
verdade, o que a estava segurando era um jovem que conhecera cavalgando perto
das macieiras e com quem começou a se encontrar às escondidas, ora atrás do
moinho, ora no celeiro, ora em qualquer lugar.
Mãe e
pai não objetaram, pois cozinhar era um dos predicados mais apreciados pelos
pretendentes às moçoilas da época, assim como lavar, passar, encerar, varrer,
parir, cuidar de vinte filhos e estar sempre linda para o marido.
A
jovem, toda contente com a permissão dos pais, foi contar à governanta, na sala
de costura. Lá chegando, entusiasmada, começou a falar da novidade, sentando-se
ao lado da velha senhora. Perto das duas havia uma roca de fiar, na qual a
menina ficou passando a mão para tirar a poeira, o que fez a governante
admoestá-la:
-
Menina, tira a mão dessa roca velha ou vai acabar enfiando uma ferpa no
dedo.
E não
é que isso acabou acontecendo? Quase incontinente ao alerta da governanta, um
fiapo de madeira acabou entrando debaixo da unha da jovem, que abafou um grito
de dor.
Assim
que a velha saiu para tratar de outros afazeres, a adolescente, chupando o
dedo, foi atrás dela, falando sem parar. A senhora ria-se com tanta euforia. De
repente, ouviu-se um baque seco: a menina desmaiara atrás dela, por pouco não
despencando escada abaixo.
3 – UMA DONZELA DORME NA FLORESTA
A
governanta foi tomada por um susto sem tamanho. Não sabia no que pensar e nem no
que dizer aos pais da jovem.
E se
ela morreu? Por que isso foi acontecer a uma menina tão jovem? Teria ela alguma
doença? Os pensamentos da velha se embaralhavam.
A
idosa esfregou alecrim e alfazema no nariz da moça, deu-lhe tapas no rosto.
Nada.
A
menina respirava. Estava viva, constatou a idosa, aflita. Com medo de alguma
criada encontrar a menina naquele estado, a governanta a escondeu num cômodo
menos frequentado, para onde a arrastou com muita dificuldade.
À
noite, usando um carrinho de jardim, a senhora levou a adormecida até a
clareira do bosque que circundava a propriedade, onde fez uma cama com galhos e
folhas. Por fim, com esforço, conseguiu ajeitar a jovem e cobri-la.
Pela
manhã, a velha voltou à floresta. A menina ainda dormia, mas nada a fazia
despertar. Assim foi no dia seguinte. E no outro. E também no outro.
Por
fim, a governanta desistiu e deixou a adormecida na clareira. Um dia ela
acordaria. Dias depois, a pobre mulher morreu “de morte morrida”. O capataz, ao
encontrá-la morta, tomou as providências necessárias e enviou uma carta ao
patrão, contando o ocorrido. Naqueles tempos, as cartas andavam muito devagar.
Quando
a missiva enfim chegou, a família preocupou-se com a filha, que ficara aos
cuidados da falecida. Assim enviou outra carta para o capataz, pedindo
notícias.
4 – UM JOVEM APAIXONADO
O
jovem por quem a menina se apaixonara era um príncipe. Claro, só podia ser, esta
é uma lenda medieval.
Ele
não contara à jovem sobre sua condição, pois queria ter a certeza de que a
menina gostava dele e não do seu título e também não apreciava ser visto como
filho da Rainha, uma mulher de maus bofes, conhecida como má, fria e desumana.
Os
dois ficaram afastados um bom tempo, pois o príncipe precisou viajar para
tratar de assuntos urgentes do reino, usando a desculpa de que ia visitar o velho
pai doente no hospital de uma cidade distante.
Voltando
da viagem e depois de tanto tempo sem ver a amada, o jovem resolveu voltar ao
bosque. Foi a todos os lugares onde se encontravam, mas nada. Chegou ao
interior do bosque ao anoitecer. Resolveu pernoitar ali, pois não era seguro
cavalgar àquelas horas naquelas trilhas cheias de salteadores.
Ao se
aproximar da clareira, ficou espantado com o que viu. Lá estava a sua amada,
dormindo. Por instantes ficou ali, anestesiado, olhando, sem entender porque
ela estava dormindo tão longe de casa.
Tentou
acordá-la, mas, como aquele era um sono enfeitiçado, nada aconteceu. A moça não
se mexia. Aflito, o príncipe passou a noite toda acordado, na esperança de
vê-la despertar. A manhã chegou sem boas notícias: lá estava a jovem do mesmo
jeito.
5 – A MÃE ADORMECIDA
O
príncipe sabia que não poderia levá-la ao Castelo.
Sua
mãe odiava com todas as forças qualquer pessoa que entrasse na vida dele. Ela já
prejudicara muitas pessoas apenas por desconfiar de uma simples amizade.
Sendo
assim, ele passou a ir todas as manhãs para aquele bosque, alegando para a mãe
que o lugar era bom local para caçar, o que nunca fazia, pois ficava ao lado da
jovem o dia inteiro. Com ele ia sempre o seu criado de confiança. Era este quem
caçava, pois era prudente levar qualquer coisa para engambelar a Rainha.
Ninguém
mais sabia dessa história, exceto o príncipe e o criado.
Para
complicar o cenário, a menina começou a apresentar um ligeiro aumento no
tamanho da barriga. A princípio, o rapaz imaginou ser mais um sintoma daquela
doença que a deixara dormindo para sempre.
Os
dias se passaram.
Os
pais da menina iam e voltavam à mansão para procurar a filha. Andavam pelos
arredores perguntando, mas ninguém dava conta dela. O capataz, coitado, nem
sabia que a jovem tinha ficado para trás quando a família se fora. Muito menos
sabiam os criados.
O
tempo foi passando e a barriga da menina só aumentava. O príncipe, que à esta
altura já sabia do que se tratava, porque parvo ele não era, ficou muito
preocupado. Afinal, as coisas que os dois faziam às escondidas nos cantos da
fazenda tinham potencial para acabar naquilo.
Eram
filhos do príncipe, netos da megera. E agora?
6 – OS TRIGÊMEOS
Nasceram
três lindas crianças, ali mesmo, no meio daquele mato. Os cuidados foram
complicados. A mãe, naquele sono sem fim, não conseguiria amamentá-las. O jovem
passou a ir todos os dias, mesmo sob a severa implicância da rainha. Era ele
quem colocava as criaturinhas para mamar, ajeitava as suas fraldas e lhes dava
banho. À noite, era o criado quem cuidava de tudo.
Obviamente,
o príncipe sofria ao ver aquela mãe, tão jovem, por quem era tão apaixonado,
dormindo sem nunca acordar, sem saber sequer que tinha dado à luz filhos e nem
como conseguiram nascer.
No
castelo, a megera inquiria sem parar os serviçais, em busca informações sobre o
príncipe. Ninguém sabia nada. Também fustigava o filho, para que este lhe
esclarecesse os sumiços. Ninguém falava coisa com coisa.
No
bosque, as crianças já engatinhavam.
Religiosamente,
o pai aparecia com roupas e alimentos. Lá ficava o dia todo entretido,
ensinando aqueles bebês a sentar, engatinhar, andar e falar.
Certo
dia, um dos pequenos brincava na cama vegetal quando resolveu pegar nas mãos da
mamãe adormecida. Brincando, acabou fazendo saltar a ferpa da roca que, há
quase um ano, havia entrado debaixo da unha da jovem. Não se sabe como o
pequenino fez aquilo, mas algo aconteceu e mudou totalmente o rumo desta prosa.
7 – ELA ACORDOU
Sem
aquele espinho enfeitiçado sob a unha, a jovem mamãe começou a se mexer. Abriu
os olhos, que percorreu ao redor, como à procura de saber onde estava e, quem
sabe, quem era. Viu aquela parafernália de roupas, brinquedos e fraldas,
algumas espalhadas e outras guardadas em pequenas cabanas de pedra feitas pelo
príncipe e seu criado.
Sentindo-se
tonta, sentou-se devagar e deparou-se com o jovem completamente estupefato,
paralisado, a fitá-la de perto.
Dois dos
pequenos engatinhavam no chão, enquanto o outro, que estava ao lado dela, pulou
para seus braços. A jovem não entendia nada. Quando o príncipe, por fim,
contou-lhe tudo, nos mínimos detalhes, a menina recobrou a memória e abraçou os
filhos, cujos nomes eram Cravo, Rosa e Jasmim.
A
jovem não precisava mais da ajuda do criado durante a noite, que então voltou a
dormir no castelo. Era o único que não havia sido questionado pela rainha sobre
os sumiços do príncipe. Até cruzarem-se num corredor.
- Até
que enfim vejo-te no castelo - disse a rainha ao criado - por onde andavas, que
nunca mais coloquei os olhos em ti?
-
Sempre nos afazeres, sua majestade, minha senhora. Andei com os aldeões a
consertar nossas muralhas, que estão quase arruinadas, mentiu o rapaz.
A
rainha era má, mas também era burra que nem uma porta, e acreditou. No entanto,
perguntou:
-
Diga-me por onde tem andado o meu filho, pois nunca o vejo o dia inteiro.
- Sua
majestade, minha senhora, eu não tenho servido a seu filho há muito tempo, de
forma que não saberei responder, redarguiu o rapaz, tremendo.
- Está
bem, disse ela.
Contudo,
a maldade da rainha era tanta que ela arrancaria, de um jeito ou de outro, a
informação do pobre criado ou de quem quer que fosse.
8 – A SAIA DE GUIZOS
Tão
logo se viu mais forte, a jovem saiu da clareira com os três pequenos e foi para
a mansão da família, levada pelo jovem e seu criado.
O velho
capataz e os empregados da mansão viram de longe a aproximação da família.
Quando
a jovem desceu do cavalo, o senhor a reconheceu e a abraçou, chamando a nova
governanta para cuidar de todos, antes que pudessem conversar e ela contar tudo
o que se passou.
No dia
seguinte, o rapaz disse à amada quem era e que precisava voltar ao castelo.
Antecipando
a tragédia que poderia acontecer se contasse tudo para a mãe, passou antes numa
feira de variedades, em busca de algum sábio que o pudesse ajudar a pensar.
O
príncipe perguntou à amada o que ela desejava como presente da feira. Aurora (até
que enfim apareceu o nome dela) pediu uma saia de guizos.
- Com
certeza terás a tua saia de guizos, disse o apaixonado rapaz.
Dias
depois chegava pelo criado, às mãos de Aurora, uma maravilha de saia.
9 – A REVELAÇÃO INVOLUNTÁRIA
Agora
que Aurora e os filhos estavam em segurança, o príncipe, que se chamava Heitor (até
que enfim aparece também o nome dele) precisou ficar mais tempo no castelo
a serviço da mãe, que o sobrecarregava para que não saísse mais de lá. Talvez
assim ela sossegasse o espírito (se é que tinha um).
A
ladainha da megera, o dia todo, atrás dele, o sufocava:
- Por
que desapareceste? Foram meses numa rotina fora do normal! Esgueirava-se pelo
castelo como a fugir de mim. Alguma coisa havia. Ou há! E as suas desculpas?
Que caçadas intermináveis eram essas? Se eu descobrir que andas tramando
tomar-me o reino, mato-te antes!
O
rapaz nada dizia, apenas que nunca iria tramar contra ela. Essa era a verdade
que bastava por ora.
Certa
noite, Heitor não se recolheu. Estava cansado das reuniões e tinha saudade de
Aurora e dos meninos.
Foi
para a sala de música, agarrou uma garrafa de vinho e a bebeu inteira.
Pegou
no sono numa espreguiçadeira.
A
rainha, passando pela sala em direção aos seus aposentos, viu Heitor roncando
alto.
- Que
sono pesado, pensou ela.
Foi aí
que resolveu cochichar no ouvido dele:
-
Heitor, o que fazias na floresta?
O
rapaz tinha o hábito de falar dormindo e resmungou:
- Ai
de mim! Cravo, Rosa e Jasmim.
Ao que
a rainha perguntou:
- Quem
são esses?
Virando-se
para outro lado, o jovem murmurou:
-
Saudade de vocês, meus filhos, saudade de ti, Aurora.
Pronto.
Segredo descoberto. E o que a rainha ia fazer com isso era inominável.
10 – O INOMINÁVEL
A
megera mandou Heitor para uma viagem e chamou o valete:
- Conheces
alguma Aurora nas redondezas?
O valete
respondeu:
-
Alteza, minha senhora, é uma das filhas daquele fazendeiro da cidade, que tem
uma mansão enorme perto do bosque. Aurora não é um nome comum. É ela.
A
rainha então falou:
- Pois
vá até lá e veja se essa Aurora vive na mansão e se tem três filhos com nomes
de flor. Se tiver, diga-lhe que eu já soube tudo por Heitor e que desejo
conhecer os netos. E que é uma ordem do príncipe.
Lá se
foi o valete. Ele conhecia a rainha, sabia que vinha maldade aí, mas
desobedecê-la seria ir para a forca.
O homem
chegou à mansão e foi atendido pela governanta, a quem pediu que chamasse
Aurora, em nome do príncipe. Explicou à jovem sobre o pedido da rainha e a
ordem que recebera.
O
capataz e a ama, quase ao mesmo tempo, encorajaram-na a enviar os pequenos para
a rainha conhecer.
Aurora
e a ama ajeitaram os meninos, que foram para o castelo da megera com o valete.
Chegando
lá, o homem levou as crianças à presença da horrível mulher.
Sem
olhar para os netos, a rainha chamou a cozinheira-chefe e ordenou:
-
Coloca essas três criaturas na sopa de hoje e cozinha-as bem.
A
cozinheira, apavorada, pegou os três que se foram com ela sem saber o que lhes
iria acontecer.
Quando
o príncipe chegou, a megera o recebeu sorrindo e mandou servir o jantar. Disse
ela:
-
Deves estar cansado. Mandei-te fazer uma sopa forte para acalmar-te o estômago
e o coração.
Quando
Heitor começou a comer, a monstra disse:
-
Come, come, filho meu, come que é tudo teu.
A
tristeza e a sopa deixaram o príncipe doente e acamado.
Não
acabou ainda! A maldade da rainha não tinha limites.
11 – A LUTA FINAL
A
megera mandou agora que o valete buscasse Aurora, na fazenda, com a desculpa de
que seria realizado o casamento dela com o príncipe. A moça, com saudades do
amado, vestiu a saia de guizos e seguiu o homem.
A
rainha a esperava.
Uma
vez no castelo, conduziu Aurora a um jardim externo, onde lançou-se sobre ela,
enfiando as longas unhas em seus braços e atirando a jovem em cima de uma mesa.
Aurora era forte e desvencilhou-se. As duas rolaram pelo chão, provocando um
imenso ruído nos guizos da saia da jovem.
O
barulho dos chocalhos chegou até Heitor, acamado. O príncipe se lembrou dos
guizos de Aurora e levantou-se às pressas, para encontrá-las esgoelando-se
mutuamente.
Heitor
as separou e mandou que a mãe fosse amarrada, pois estava descontrolada.
Chamou
o valete e os serviçais. Diante de todos, perguntou à mãe o motivo de tanto
ódio.
A
rainha espumava e, às gargalhadas, contou que o jovem comera os próprios
filhos.
Nesse
momento, a cozinheira interveio e revelou que as crianças estavam seguras. Ela
as escondera.
Heitor
mandou chamar o Conselho, que ouviu a todos e sentenciou a rainha à prisão
perpétua no calabouço do castelo, onde ficou por trinta anos na companhia dos
ratos, sem ver o sol e de onde só saiu morta, já em estado de putrefação.
A
cerimônia de coroação de Heitor e a celebração do casamento ocorreram juntas,
onde estiveram presentes toda a família de Aurora, o capataz, a governanta e os
demais criados da fazenda.
Não se
sabe se viveram felizes para sempre.
É bem provável
que não, sempre aparecem seres fora da casinha na vida de todo mundo,
ainda mais no centro do poder, seja monárquico ou republicano. Sabemos o que é
isso.
NOTA:
A
oralidade tradicional está registrada no livro onde encontrei a lenda, que é a
obra “Contos Tradicionais do Povo Português”, de Theófilo Braga, Volume 1,
Clássicos da Literatura Portuguesa.
No
entanto, gosto de me divertir inserindo cenários, personagens e sequências que
possam dar ao relato, por excelência fabuloso, uma pequena verossimilhança, tentando
fazer o leitor voar na fantasia sem tirar os pés de alguma lógica, mesmo diante
da absoluta fantasia.
Tento
não corromper a essência das lendas, ricas exatamente por terem nascido em
milenares disse-me-disses que explicam o então inexplicável, com passagens
e seres mirabolantes, sempre deixando lições para reflexão, consoante os
valores de cada época.

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