É FEIO, MAS É MEU.
Há quem diga que é um serviço complicado dar nomes às cidades, vilas, aldeias, bairros e freguesias. Países majoritariamente católicos, como Portugal e Brasil, abusam dos nomes de santos e santas, mas haja canonizados para tanto logradouro.
Aí
acabam homenageando autoridades, políticos, nobres, rios que cortam os lugarejos
ou os incidentes topográficos mais inusitados das proximidades.
Fazendo
um esforço louvável para evitar repetições, os inventores de nomes acabam
enxugando gelo, já que não faltam lugares diferentes ostentando nomes iguais e
sempre aparecem novos cantos carecendo identificação.
Acontece
que certos nomes são tão esquisitos que chego a pensar que quem os escolheu eram
gozadores metidos a sérios. Quem sabe um conselho de gozadores?
Provavelmente
não é nada disso e esses nomes se firmaram pelo uso de um ponto de referência
ou de um fato corriqueiro, que com o passar do tempo ficou insólito e virou motivo
para ironia e perturbação dos pobres moradores.
Eu
mesmo moro numa rua que se chama Bela Vista do Botão. Sério.
Ainda
bem que é aqui, onde o pessoal entende que Botão é o precursor da flor ou, no
máximo, o responsável por fechar camisas e calças.
Às
vezes fico pensando como fazem os moradores da cidade com o maior nome do mundo
quando precisam dizer onde moram. O município fica a noroeste do País de Gales,
no Reino Unido, na ilha de Anglesey. Ainda bem que são apenas três mil as
pessoas que precisam destroncar a língua.
-
Olá, como você se chama?
-
Charles.
-
De onde você é?
-
Do País de Gales.
-
Que legal! De que região?
-
Noroeste de Gales.
-
Exatamente onde?
-
Na ilha de Anglesey.
-
Não, quero saber o nome da cidade.
-
Ah, deixa para lá.
Esse
diálogo seria plenamente normal se eu ou você morássemos lá. Pelo menos eu não
gostaria de ter de pronunciar esse nome:
Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch.
Sério,
esse é o nome da cidade.
Está
até no Guiness Book como o maior nome de cidade do mundo. Sabe o que quer
dizer? Lá vai:
Igreja
de Santa Maria no fundo do aveleiro branco perto de um redemoinho rápido e da
Igreja de São Tisílio da gruta vermelha.
Até
lembra o antigo nome de Barbacena, em Minas Gerais: Arraial da Igreja Nova de
Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo.
Manda
um galês dizer isso para ver se sai.
Minas
Gerais, o estado com o maior número de municípios do Brasil, é cultuado por ter
muitos dos seus 853 municípios batizados com nomes mais do que esdrúxulos. E
isso nem é privilégio de Minas, porque existem lugares noutros estados que não
ficam nem um pouco atrás dos nomes mineiros.
Dentro
desse tema, a minha maior curiosidade está em entender porque esses nomes
escalafobéticos acontecem aqui em Portugal com tanta frequência, um país tão
pequeno, com 308 municípios, um número que nem chega perto do Brasil, com os seus 5.565
espalhados num território 92 vezes maior que Portugal.
Sendo
assim, as extravagâncias nominativas deveriam ter mais probabilidade de ocorrer
em terras brasileiras. Só que não.
Arrisco-me
a dizer que essa tendência brasuca de contemplar cidades e lugarejos com nomes
excêntricos pode ser uma herança portuguesa, misturada com as demais
influências linguísticas que forjaram o nosso modo de falar.
Se
acham que estou exagerando, Portugal nomeia algumas das suas localidades com
nomes para lá de estapafúrdios.
Obviamente,
há muitos lugares com nomes bonitos, mesmo que sejam incomuns, como
Montemor-o-Novo, Condeixa-a-Velha, Paredes, Amadora e até mesmo Entroncamento,
que recebeu esse nome devido ao cruzamento das linhas férreas do norte e do
leste que ajudaram a desenvolver o local.
No
entanto, há lugares que entraram na fila da gozação mais de duas vezes, só
pode.
Os
municípios aqui, são fragmentados em freguesias, uma espécie de sub-região com
juntas administrativas eleitas e tudo. E é aí, nesses 3.091 núcleos
populacionais e nos seus bairros, que mora o perigo.
A
criatividade lusitana, no caso desses ajuntamentos de pessoas, se superou.
Alguns
nomes são, digamos, tão peculiares, que achei por bem classificá-los nos
seguintes grupos, para efeitos mnemônicos: Anatomia Humana, Psiquiatria &
Saúde, Relações Familiares, Comes & Bebes, Zoologia & Assemelhados,
Vida Amorosa, Empreendedorismo, Indesejáveis e Halloween.
Em
Anatomia Humana, temos as localidades de Cabeça Gorda, Orelhudo, Bexiga,
Cabeçudos, Pés Escaldados, Anais (!), Rego do Azar(!!), Pau Gordo e Traseiros.
Pés Escaldados também poderia estar na lista Psiquiatria & Saúde.
No
setor Psiquiatria & Saúde, participam com louvor os logradouros Aliviada,
Angústias, Imaginário (quem não teve um amigo desses?), Hospícios, Vale de
Azia, Covide (esta ficou famosa mais recentemente e está classificada nesse setor
por motivos óbvios) e Quinta de Comichão.
Como
todo povo que preza uma família bem constituída, há também o grupo de nomes que
chamei Relações Familiares e dele fazem parte os locais Paitorto, Solteira,
Filha Boa e Casa Às Dez (qual é a família que não impõe aos filhos um horário para
voltar para casa?).
No
conjunto Comes & Bebes estão alocados os seguintes lugares: Carne Assada,
Pouca Farinha, Água de Todo o Ano, Bagaceira (a cachaça daqui, aguardente de
uva, excelente), Vinha da Desgraça (para quem abusa, claro) e, pasmem, Deixa o
Resto (normalmente, quando a gente não aguenta mais comer, acaba deixando o
resto).
Na
seção Zoologia & Assemelhados contemplamos uma lista mais ampla: Venda da
Porca, Pé de Cão, Cama Porca (essa poderia estar no grupo Relações Familiares: quem
não tem um irmão ou irmã que deixa a cama toda emporcalhada com farelos,
cabelos e cacos de unha?), Focinho de Cão, Chiqueiro, Rabo de Porco, Rabo de
Peixe, Rato, Ratoeira, Vale da Rata, Venda das Pulgas e Vacalouras.
A
divisão Vida Amorosa pode parecer picante, mas acreditem, os nomes existem e eu
apenas os agrupei. As plagas que se encaixam são: Namorados, Vila Nova do
Coito, Vilar dos Prazeres, Paixão e ainda, Coito. Há outras com nomes mais
cabeludos, mas optei por deixá-las de fora. Respeito, não é?
Na
seção Empreendedorismo encontramos localidades que nos incentivam a exercer uma
atividade comercial, como Venda dos Pretos, Venda da Gaita e Venda das
Raparigas. Existem outros locais cujos nomes começam com Venda ou Vendas, mas
são nomes comuns, digamos assim.
Os
lugares que encaixei na seção Indesejáveis têm os nomes de Deserto, Pobreza,
Pedaço Mau, Mal Lavado (poderia estar em Relações Familiares; quem nunca
recebeu um puxão de orelhas da mãe por ir dormir sem banho?), Catraia do Buraco
(quem vai querer navegar numa catraia que já está no fundo de um buraco?), Cabrão
(poderia estar na sessão de Zoologia & Assemelhados, mas o vocábulo não
identifica uma cabra grande e, sim, uma pessoa portadora de insuficiência de
caráter).
É
bom saber que esses logradouros não têm nada de indesejáveis, são apenas os
nomes que são assim.
Há
ainda a seção Halloween, já que estamos perto da festa das bruxas, onde encaixei algumas
localidades nomeadas de modo tenebroso, como Vale de Mortos, Purgatório,
Cemitério e Endiabrada.
Creio
que consegui convencê-los que aqui, assim como aí, a inventividade das pessoas
para nomear a suas terras tende ao infinito.
O
interessante é que cada nome desses tem fortes motivos para existir, mas me
espanta que muitos já não saibam quais são eles, mesmo divertindo-se ao se
deparar com tais estripulias dos seus ancestrais.
São nomes engraçados, mas que um dia alguém achou que representariam bem essas localidades tão bonitas de Portugal. Em cada sítio desses sempre há algum vivente que sabe explicar, à beira de uma caneca de vinho, porque a sua

terra tem um nome tão, digamos, assim.


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